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Diretor vê motivação “política” e crítica à Globo em 7º lugar da Beija-Flor
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Mauricio Stycer

“Quando cantou o negócio da Globo disse que foi um tal de gritar ‘Brizola’ dentro dos módulos dos julgadores”. A frase é de Laíla, diretor de carnaval e harmonia da Beija-Flor. É uma acusação grave, na qual o responsável pela escolha do enredo vê uma associação entre o mau resultado da escola, sétimo lugar, e uma eventual perseguição de jurados à Globo.

A Beija-Flor cantou “O astro iluminado da comunicação brasileira”, fazendo uma homenagem a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, diretor-geral da Globo por cerca de três décadas, no período em que a emissora se consolidou como a principal do país. “Boni tu és o astro da televisão. Fiz da sua vida minha inspiração”, dizia o samba.

bonilailabeijaflorEm entrevista a “O Globo”, divulgada no site (inclui um vídeo) e na versão impressa do jornal, o diretor da Beija-Flor (à dir.) vê motivação política na avaliação negativa que a escola teve. “Levaram para o lado da política, e eu não suporto política.”

Leonel Brizola (1922-2004), o nome que teria sido gritado na cabine dos julgadores, foi governador do Rio Grande do Sul, no início dos anos 60, e do Rio de Janeiro, em dois mandatos, nos anos 80 e 90. Suas inúmeras brigas com Roberto Marinho (1904-2003) ficaram célebres.

Pela primeira vez em 21 anos, a escola de Nilópolis não vai participar do Desfile das Campeãs, que ocorre neste sábado (08), no Sambódromo. A entrevista de Laila pode ser lida aqui e vista aqui.


Livro expõe quatro divergências essenciais entre Boni e Walter Clark, os criadores do ‘padrão Globo’
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Mauricio Stycer

A transformação da Rede Globo, um canal carioca de pouca expressão, na principal emissora do país é atribuída, de forma quase consensual, a dois homens de televisão, ambos então nos seus 30 anos de idade – Walter Clark (1936-1997) e Jose Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni (1935).

Clark chegou no final de 1965, oito meses depois da inauguração da TV, e contratou Boni no início de 1967. Para além do sucesso incontestável da parceria, que levou a Globo à liderança de audiência e de mercado, a relação dos dois é objeto de muita especulação.

Em 1991, Clark publicou suas memórias, “O Campeão de Audiência”, na qual se diz traído por Boni e o responsabiliza, entre outros, por sua demissão da Globo, em 1977. Só agora, em 2011, ao publicar as suas lembranças do período, no badalado  “O Livro do Boni”, é que o executivo finalmente responde a Clark.

São muitas as referências, nos dois livros, ao que ambos fizeram e deixaram de fazer na Globo. Selecionei quatro passagens que mostram divergências explícitas ou visões diferentes sobre os mesmos episódios.

Além destas diferenças, também chama a atenção o estilo dos dois relatos. O de Clark, escrito com o auxílio do jornalista Gabriel Priolli, é apaixonado, caótico, mistura vida pessoal com trajetória profissional e mostra como, frequentemente, as duas se entrelaçam e o atrapalham. Já o texto de Boni é organizado, metódico e, em diversos momentos, parece um relatório, repleto de nomes e datas.

Entre os personagens coadjuvantes na disputa Clark x Boni, os principais nomes citados são os de Joe Wallach, ex-representante do grupo americano Time-Life e então superintendente de Administração, Jose Ulisses Arce, superintendente de Comercialização, e Armando Nogueira, diretor de jornalismo. Além, é claro, de Roberto Marinho, mencionado quase sempre como “dr. Roberto” pelos dois executivos.

Armando Nogueira e a criação do Jornal Nacional
“O curioso nesta história é que o Armando Nogueira, que hoje aparece como criador do Jornal Nacional, foi quem mais resistiu a ele. O JN não teve propriamente um autor, um gênio que teve o estalo. Nasceu de muitas discussões de toda a equipe, eu, Boni, Armando, Arce, Joe, Zé Otavio. Todos sabíamos que, algum dia, operaríamos em rede e que quando este momento chegasse, teríamos um jornal de cobertura nacional. Mas na hora de implantá-lo para valer, o Armando refugou.” (Clark)

“Era um sonho meu e do Walter e apenas aguardávamos uma oportunidade para por o projeto em prática. (…) Um dia, quando eu, o Arce, o Borjalo, o Otto Lara Resende, o Magaldi e o Armando Nogueira almoçávamos na sala da diretoria da Globo, o assunto telejornal de rede veio novamente à baila. O Arce queria saber porque não criávamos logo o tão sonhado produto e o Armando explicou de forma simples e concisa, como era seu estilo:
- Não há dinheiro e a afiliadas não vão querer.
O Walter e o Arce entendiam que o Armando era contra o JN. Não era nada disso. Armando e eu queríamos apenas levar o projeto a sério.” (Boni)

(Na foto acima, Cid Moreira e Hilton Gomes, os primeiros apresentadores do noticiário)

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A grade
“Fui eu quem criou a estrutura de grade de programação, assim como fui quem sempre lutou para fazer TV em rede no Brasil” (Clark)

“Outra balela que existe sobre a televisão brasileira é a que atribui a criação da grade a uma emissora ou a alguma pessoa. Nada disso. A grade existe desde que a televisão norte-americana entrou no ar e, no Brasil, nos anos 1940, não havia emissora de rádio que não tivesse a sua grade”. (Boni)
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O incêndio de 1976
“Quando chegamos lá embaixo e vimos aquela barafunda formada, eu propus que ele cuidasse da operação da emissora que eu dirigiria o trabalho de resgate das fitas de videoteipe com os bombeiros. Foi o que fizemos. (…) Obviamente, como eu fiquei todo o tempo na rua, dando ordens, conversando com os bombeiros, articulando aquela operação toda, no dia seguinte só dava eu nos jornais. (…) Aquela publicidade que eu não pedi a ninguém foi demais para o Boni. Ele ficou louco de raiva. Mandou uma carta ao Roberto reclamando que, enquanto trabalhava para manter a estação no ar, eu me promovia à custa da desgraça no Globo.” (Clark)

“Convoquei todas as centrais sob minha responsabilidade e começamos a nos preparar para voltar ao ar, direto do Rio. Enquanto isso, o Walter Clark fazia show para a mídia, comandando o resgate do acervo de fitas de videotape (…) O dr. Roberto Marinho quis saber como havia ocorrido aquele milagre e me pediu um relatório, que fiz com cópia para o Walter Clark e o Joe Wallach. O Walter, que não participou da operação e nem tomou conhecimento dela, não gostou. (…) O incêndio foi um marco em nosso relacionamento” (Boni)

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Clark x Boni
“Jamais neguei, e não o faço agora, a importância de Boni no crescimento da Globo e na história da própria televisão brasileira. Sempre afirmei, em todas as oportunidades, diante de todas as platéias, a competência que ele tem. Sempre considerei que o meu maior mérito na TV foi ter conseguido formar grandes equipes e sei que o Boni foi a maior estrela de todos os times que montei. Mas ele preferiu abrir mão da nossa amizade e investir num projeto próprio de poder, que me excluía”. (Clark)

“Em 1977, dez anos após eu ter chegado à Globo, o Walter foi demitido pelo dr. Roberto, repentinamente. O dr. Roberto vinha cismando com o comportamento dele dentro e fora da empresa, principalmente em relação ao abuso de álcool e, segundo alguns, drogas. (…) Para mim, ele foi vítima de um temperamento extremamente sensível e de uma vaidade sem limites que o levaram ao alcoolismo. (…) Não tive nada a ver com a saída do Walter. (…) Quando foi formalizada a demissão, o desagradável foi que o Walter esperava que eu saísse com ele, mas eu não podia fazer isso, pois, nesse período, já havia estabelecido uma parceria intensa com o Joe Wallach e estava comprometido com todos os companheiros que tirei das outras emissoras e trouxe para a Globo. (…) O que eu poderia tentar era segurar a demissão do Walter, e eu tentei.” (Boni)

Em tempo: Outros dois livros de personagens envolvidos nesta história tratam do assunto. O primeiro, de onde se reproduziu a foto no alto deste texto, é “Meu Capítulo na TV Globo”, de Joe Wallach. O segundo é a biografia oficial “Roberto Marinho”, de Pedro Bial.

Observação: Este texto foi publicado originalmente, e de uma forma muito mais agradável de ler, no UOL Televisão.


Globo reconhece erros em documentário sobre Roberto Marinho
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Mauricio Stycer

Com direção geral de Rozane Braga, a produtora FBL acaba de lançar, em formato de DVD, o documentário “Roberto Marinho – O senhor do seu tempo”.

A pedido da “Folha”, fiz uma resenha, publicada neste domingo na “Ilustrada” (disponível para assinantes do UOL e do jornal). Observei que o filme não apresenta novidades significativas sobre o personagem, mas reforça um movimento recente das Organizações Globo de discutir em público alguns dos “pecados” que celebrizaram os veículos do grupo.

O documentário tem o mérito de tratar francamente de assuntos espinhosos para a Globo, como o governismo explícito da emissora por décadas, o escândalo Proconsult, em 1982, a omissão na cobertura da campanha das Diretas, em 1984, e a edição do debate entre Collor e Lula, em 1989.

Ainda assim, trata destes problemas unicamente pela ótica dos filhos de Roberto Marinho e de funcionários e assessores do grupo. Observo, ainda, no texto que o documentário apresenta a trajetória do empresário de forma didática, mas pouco imaginativa e sem profundidade.

Por limitações de espaço deixei de fora do texto observações sobre duas imprecisões que vi no documentário. A primeira ocorre ao tratar do famoso acordo com o grupo Time-Life, que injetou cerca de US$ 6 milhões na nascente TV Globo. O caso foi objeto de uma barulhenta CPI no Congresso e, depois, de uma avaliação do governo militar, que terminou por avalizar o acordo.

Roberto Irineu Marinho diz que a Globo foi “condenada” no caso e, em função disso, decidiu comprar a parte do grupo americano. Os principais relatos sobre o caso, inclusive de Joe Wallach, que acaba de publicar um livro, indicam que foi o Time-Life que perdeu o interesse no negócio em função dos seguidos prejuízos acumulados nos primeiros seis anos de vida da emissora.

Outro ponto discutível é a afirmação de Boni de que Roberto Marinho concebeu a TV Globo, inicialmente, como “uma cópia em vídeo do jornal ‘O Globo’, uma emissora de informação”. Basta ver a programação dos primeiros anos da TV, que incluía humor popular, novelas e programas sensacionalistas, para constatar que esta tese não se sustenta.


Livro de assessor de Roberto Marinho traz elogios, mas poucas novidades
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Mauricio Stycer

Além de Roberto Marinho (1904-2003), que apostou no negócio, há consenso que dois outros homens foram fundamentais para a consolidação e o sucesso inicial da Rede Globo: Walter Clark (1936-1997) e Jose Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni (nascido em 1935).

Há, porém, um quarto nome nesta história, nem sempre mencionado, o do americano Joe Wallach, um nova-iorquino nascido em 1923, cuja participação nestes anos iniciais da emissora carioca é considerada tão importante quanto a dos dois executivos brasileiros.

Nunca se conheceu em detalhes o papel de Wallach na Globo, nem mesmo quando ele prestou depoimento numa CPI do Congresso brasileiro, em 1966, instalada com o objetivo de averiguar a atuação do grupo de mídia americano Time-Life na empresa comandada por Marinho (na foto à esq., os dois, no Natal de 1978).

Entre 1962 e 1970, o grupo estrangeiro investiu cerca de US$ 6 milhões na Globo. Com formação na área de contabilidade e administração, Wallach chegou ao Rio em agosto de 1965, enviado para cuidar dos interesses do sócio de Marinho. Cinco anos depois, com a saída da Time-Life do negócio, naturalizou-se brasileiro e permaneceu na emissora, como “superintendente executivo”, até 1980.

Em “Meu Capítulo na TV Globo”, que acaba de publicar, Wallach anuncia a intenção de contar a história de seus 15 anos na Globo. Era, por motivos óbvios, um depoimento muito esperado, mas que resulta altamente frustrante.

Além dos elogios ao “grande líder” Roberto Marinho, que se repetem a cada página, há poucas novidades e informações relevantes que já não fossem conhecidas por quem se interessa pela história da televisão no Brasil.

Para quem aprecia o gênero, duas outras biografias tratam deste período inicial da Rede Globo com riqueza muito maior de detalhes. “Roberto Marinho”, de Pedro Bial, lançado em 2005, traz a versão oficial da história. E “O Campeão de Audiência”, de Walter Clark e Gabriel Priolli, publicado em 1991, apresenta o olhar do principal executivo do grupo, 14 anos depois de ter sido demitido.

Wallach descreve a situação de caos financeiro e administrativo da Globo nos seus primórdios, a sua ajuda na ascensão de Clark ao posto de principal executivo da emissora e o seu papel como confidente e garoto de recados de Roberto Marinho.

A demissão de Walter Clark (esq.), então um dos executivos mais bem pagos no Brasil, com salário de US$ 1 milhão ao ano, merece um exame mais detalhado de Wallach. O americano observa, de passagem, que Roberto Marinho sentia ciúmes de Clark, mas atribui a decisão de afastá-lo ao seu “alcoolismo”.

Gabriel Priolli, para quem Clark ditou suas memórias, lembra a este blogueiro que o executivo era “um empregado que aparecia mais do que o patrão, e parecia até mais dono da Globo que o próprio dono”. Segundo o jornalista, “Walter tem certeza de que foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que azedou a maionese dele”, embora reconheça que seus excessos com bebidas e drogas tenham lhe causado problemas.

Na sua autobiografia, Clark conta que foi Wallach quem o encontrou, por telefone, em um hotel em Nova York, em maio de 1977, e lhe deu a noticia da demissão. Em seu livro, o americano é categórico: “Da minha parte, jamais disse uma palavra”. Segundo ele, foi Clark quem telefonou “bêbado” e disse: “Joe, sei que ele (Roberto Marinho) vai me mandar embora. Se você não conseguir uma indenização decente para mim, vou te matar”.

Outro episódio importante, sobre o qual há divergências nos relatos de Clark e Wallach, diz respeito à criação do “Jornal Nacional”, em 1969. O brasileiro diz que Armando Nogueira (1927-2010), diretor de jornalismo da emissora, foi contra, inicialmente, o projeto. Achava que a emissora não tinha condições técnicas de realizá-lo. Já o americano diz que deve-se  a Nogueira “a grande liderança na criação e expansão do JN”.

Dos quatro personagens-chave ligados ao nascimento da Globo, só falta a biografia de Boni (na foto com Wallach, em Angra dos Reis, em 1980). É um livro aguardado há muito tempo, sobre o qual volta e meia se diz que ele estaria escrevendo. Espero, se vier, que traga mais novidades e menos elogios.

Mais informações: “Meu Capítulo na TV Globo”, de Joe Wallach (Topbooks, 232 págs., R$ 49). “Roberto Marinho”, de Pedro Bial (Jorge Zahar, 400 págs, R$ 59). “O Campeão de Audiência”, de Walter Clark com Gabriel Priolli (Editora Best-Seller, 422 págs., esgotado, mas facilmente encontrado em sebos)


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