Blog do Mauricio Stycer

Tipos de Leitor – O Íntimo

Depois de quatro anos atuando como jornalista na internet, resolvi colocar no papel algumas reflexões e sentimentos sobre o impacto que esta nova especialidade está produzindo no meu ofício. Resultou deste esforço a série Tipos de Leitor, que comecei a publicar em março.

Muita gente criticou a série, por enxergar nos textos uma tentativa de desqualificar os leitores que comentam o meu trabalho. Lamento dizer que é exatamente o oposto. O que me move é justamente o fascínio pela nova forma de relação entre jornalista e leitor promovida pelo meio (a internet) que mudou a forma de se fazer jornalismo.

Uma imagem que sempre me orientou no trabalho, ouvida quando ainda escrevia numa Remington, é que o primeiro parágrafo de qualquer texto deveria produzir no leitor o impacto que alguém sente, numa briga, ao ser agarrado pelo colarinho da camisa e levantado do chão.

Procuro até hoje não perder de vista esta imagem, e sigo tentanto agarrar o leitor pela camisa, mas agora, ao mesmo tempo, também enxergo outra. Desde que passei a publicar na internet, escrevo pensando que o leitor, a qualquer momento, sairá de dentro da tela do computador, me agarrará pela camisa e me fará perguntas e críticas. “Por que você escreveu isso?” “O que quis dizer?” “Viu o erro que cometeu?” E por aí vai…

Já é lugar comum falar deste impacto – a presença do leitor – no trabalho do jornalista, a diferença entre receber uma ou duas cartas por causa de um texto e hoje ver 300 comentários por conta de outro. Não vou me estender sobre isso.

Menos discutido, creio, é a ilusão de proximidade que este leitor sente. Assim como eu o enxergo saindo da tela para me interpelar, ele também se imagina na mesma situação, entrando no meu escritório para conversar, discutir e contestar os meus textos. E, pior, ele supõe estar estabelecendo uma relação de intimidade com o autor.

Vou dar dois exemplos recentes que reforçam este meu ponto de vista.

Gosto de acompanhar os comentários da atriz Luana Piovani no Twitter. Ela é desbocada, engraçada e, muitas vezes, incompreensível. Sempre me divirto com o que ela escreve e, eventualmente, reproduzo. Uma leitora reclamou: “Vou deixar de seguir @mauriciostycer porque ele dá RT na Piovanta! Pior que tem meia dúzia de jornalistas que se dizem sérios como o @mauriciostycer que fazem questão de dar RT nas merdas da PIOVANTA.” É evidente a decepção da leitora comigo. Na imagem dela, são coisas incompatíveis um “jornalista sério”, como supostamente eu seria, gostar do que Luana Piovani escreve.

A Globo exibiu no domingo o Festival Promessas, um evento destinado a cantores gospel. Foi, tudo indica, um gesto de aproximação com evangélicos. Li muitos textos a esse respeito, inclusive no UOL, e não vi motivos para tratar do assunto no meu blog. Posso ter feito uma avaliação errada, mas para os leitores que me inundaram de mensagens, cobrando um texto a respeito, a razão é outra: “Me contaram que você é evangélico, não sabia. Então deve ter vibrado com o Festival Gospel da Rede Globo, tá explicado”.

Os dois casos mostram reações de pessoas que parecem acreditar na ilusão de que me conhecem e entendem tanto quanto eu do meu trabalho. Parecem achar, de fato, que entram pela tela do computador e me vêem.

É preciso aprender a lidar com esta expectativa, mas isso não significa se render a ela. Aprendo demais com os leitores, leio tudo que me escrevem, levo muito em consideração o que dizem e publico todos os comentários que me ofendem, excluindo apenas os que possam configurar crime.

Continuo tentando entendê-los, motivo pelo qual não vou parar com a série Tipos de Leitor. Aceito, por isso, em contrapartida, que o leitor me rotule como quiser. Só espero que ele tenha, como eu tenho, humildade de reconhecer que ainda não nos conhecemos o suficiente.

(No cartoon acima, publicado na revista “New Yorker”, um cão diz ao outro: “Na internet, ninguém sabe que você é um cachorro”)

Compartilhe:

Tipos de leitor: o Talifã

Depois de ver Luan Santana pela primeira vez, no programa do Faustão, em 2010, Bruno Mazzeo escreveu no Twitter que o cantor “era a versão vesga do Wagner Moura”. O comentário deu origem a um massacre virtual dos fãs de Santana contra o humorista. “Rogaram praga pro meu pai morrer, pro meu filho ficar vesgo”, conta Mazzeo.

Além da agressividade e falta de humor, Mazzeo também se espantou com a quantidade de erros de português das mensagens que recebeu. “Isso é enveja“, escreveram para ele. Cunhou na ocasião um termo muito bom para designar os defensores mais radicais de Luan Santana: “talifãs”.

A palavra, como se vê, resulta da fusão de outras duas – “fãs” e “talibã” – e faz referência ao nome de um movimento fundamentalista islâmico, difundido no Afeganistão e Paquistão.

Poucas expressões captam com tanta precisão o radicalismo de certos entusiastas, motivo pelo qual rapidamente o termo passou a ser empregado não apenas para os fãs do jovem cantor, mas também para outras tribos, como a dos fãs de Fiuk, da banda Restart e de Claudia Leitte.

Esta semana, conheci estes últimos, o Talifã de Claudia Leitte. O fato de ter achado muito ruim o show da cantora durante o concurso Miss Universo, na segunda-feira, 12, me fez ouvir a fúria desta tribo.

Um argumento clássico de todo Talifã sem argumento é: “Faz melhor que ela”. Entre os mais de mil comentários ao meu texto, li esta frase uma centena de vezes, sempre acompanhada de alguma ofensa. “Seu jornalista de merda, vai lá e tenta fazer melhor que a Claudia Leitte.”

Sem saber como defender o seu ponto de vista, o Talifã também costuma concluir que a única explicação possível para uma crítica negativa deve ser o interesse sexual de quem escreve: “Cláudia Leitte estava muito gostosa. E é claro que o Stycer, que é uma bichona louca, iria falar mal dela.”

A única arma possível contra os talifãs é rir deles. Veja neste vídeo o humorista Bruno Mazzeo contando como descobriu a fúria da tribo:

 

Em tempo: Alertado pelo leitor Fernando Marés (@roteirodecinema), vi que o termo “talifan” é usado em sites americanos já há alguns anos, com o mesmo sentido. Alguns atribuem ao artista Bob Eggleton a criação do termo, mas outros contestam esta autoria.

Compartilhe:

Tipos de leitor – O Fanboy

Escrevendo sobre televisão, observo que nem todo mundo se senta diante do aparelho para ver os programas de seu agrado. Há um número considerável de espectadores que se orienta exclusivamente pelo que passa na emissora de sua preferência. Em outras palavras, são pessoas que não escolhem programas, mas seguem a grade do canal que adoram.

Entre esses fiéis de emissoras, há alguns que podemos chamar de Fanboy. O termo designa mais do que um fã dedicado, e é mais comumente usado para adoradores de alguns produtos de tecnologia.

Ele pode ser homem ou mulher, criança, jovem ou velho. Na sua paixão por um determinado canal, o Fanboy não apenas idolatra qualquer produção que assiste como se torna um guerreiro diante dos críticos, e os ataca com indignação.

O Fanboy aparece por aqui, invariavelmente, quando escrevo sobre algum programa da Globo, da Record ou do SBT. A sua forma de atuar é sempre igual. No lugar de comentar o que eu escrevo, contestando ou apresentando argumentos contrários aos meus, ele vê uma conspiração contra a emissora que está exibindo o programa que eu comento.

“Você tem inveja da Globo” ou “O seu sonho é trabalhar na Globo”, escreve o Fanboy quando observo algum problema em “Fina Estampa”.

“Você é pago pela Globo para falar mal da Record” ou “Por que você só critica os programas da Record?”, pergunta o Fanboy se faço alguma ressalva à “Fazenda” ou ao “Jornal da Record”.

O Fanboy chega a parecer acionista da emissora, mas é apenas um fã devotado com excesso de entusiasmo e pouquíssimo espírito crítico. O meu comentário recente  sobre a novela “Amor e Revolução”, do SBT, trouxe mais uma vez este leitor ao blog.

“A novela é boa sim, acho que esse Mauricio é puxa saco da GLOBO… Ele deveria criticar a nova Malhação, que tá um horror. Só faz critica para o SBT”. Outro Fanboy disse: “Toma gentalha! O seu blog é uma merda ! Rá sempre falando mal da emissora A e C! Vê se te enxerga”, escreveu, classificando o SBT, imagino, como a emissora C.

Em tempo: Outros textos da série “Tipos de leitor” podem ser lidos clicando aqui ou, na barra à direita, entre os tópicos listados no item Categorias. Agradeço ao leitor Luiz Paulo Dantas (@lpdantas) pela sugestão do termo “fanboy”.

Compartilhe:

Tipos de leitor: o Leitor dos Sonhos

O Leitor dos Sonhos não lê apenas o título, mas todo o texto, antes de comentar.

Critica, protesta, reclama, até xinga o blogueiro, mas sempre apresenta argumentos.

Corrige lapsos, aponta contradições.

Sugere, acrescenta, aponta alternativas ao ponto de vista do blogueiro.

O Leitor dos Sonhos recomenda a leitura do blog a outros leitores mesmo quando discorda.

Nas redes sociais, discute, pergunta, comenta, faz piadas. Diverge, explica, defende suas ideias. Provoca. Interpreta. Confunde, causa confusão.

O Leitor dos Sonhos leva o blogueiro a pensar, eventualmente a mudar de opinião ou a rever conceitos.

Nunca está satisfeito. Vê pelo em ovo, se decepciona com as posições do autor, cobra posturas diferentes, ameaça abandoná-lo, mas nunca deixa de dar o seu palpite.

Eventualmente não fala nada, mas dá ao blogueiro a honra da sua companhia neste blog.

O Leitor dos Sonhos acompanhou esta série e, identificando-se ou não com os tipos aqui descritos, entendeu que se tratava de uma homenagem a todos que ainda que se dispõem a ler.

O Leitor dos Sonhos existe aos montes e é por causa deles, e para eles, que sigo escrevendo.

PS: Com este texto, encerro, ao menos por ora, a série Tipos de Leitor, que pode ser lida aqui ou, na lateral direita do blog, em Categorias, no último item incluído.

Compartilhe:

Tipos de leitor: o Especialista

Ele está sempre por aí, rondando com sua sabedoria. Ele sabe tudo sobre um determinado assunto. Não há como enganá-lo. Ele é o Especialista.

Para fazer justiça ao tipo, é preciso dizer que há duas categorias de Especialista. Um é prestativo, generoso, quer partilhar o seu conhecimento. Chamo-o de o Especialista Colaborador. O outro é desconfiado, arrogante, vê os palpites do blogueiro como um abuso. É o Especialista Melindrado.

Nos textos que escrevi sobre o beijo gay em “Amor e Revolução”, o primeiro numa telenovela brasileira, o Especialista Colaborador apareceu em peso para me lembrar que já havia ocorrido um beijo entre duas mulheres na televisão: deu-se em 1963, na TV Tupi, entre Georgia Gomide e Vida Alves, no teleteatro “Calúnia”.

Como lembrou o leitor Marco Salvo, num e-mail bem-humorado, o Especialista Colaborador atua em qualquer área – futebol, artes, política, medicina etc –, sempre exibindo o seu útil conhecimento e ensinando o blogueiro a ser mais exato, atento e preciso.

Esta semana, por exemplo, ao falar da exibição de fotos de calos, frieiras e unhas encravadas no programa do Faustão, meu blog se transformou numa espécie de congresso de podologia, tantas foram as colaborações sobre o tema que recebi.

Enquanto o Colaborador chega a ser condescendente com o esforço do blogueiro de se aventurar por determinados assuntos, o Melindrado se ofende. Para este tipo de leitor, é preciso ter conhecimento profundo, pós-graduação, em táticas de futebol para se arriscar a comentar sobre o último jogo do Palmeiras.

Ele acha, igualmente, inadmissível uma mesma pessoa se aventurar a escrever sobre assuntos tão diferentes quanto reality shows e iPad. Entre os que frequentam o meu blog, há aqueles que não apenas se irritam comigo, mas também com os leitores que comentam os textos.

O Especialista Melindrado é um tipo com os nervos a flor da pele. E lembra um pouco outro tipo inesquecível, o Consultor de Empresas – aquele que sonha em silenciar os que formulam opiniões diferentes das suas.

PS. Quem quiser ler os outros textos da série Tipos de Leitor basta clicar aqui ou, na lateral direita do blog, em Categorias, no último item incluído.

Compartilhe:

Tipos de leitor – o Veja Bem

Conheci este tipo bem antes de frequentar blogs e redes sociais. No dia-a-dia, ele é o sujeito que você enfrenta sempre que precisa resolver um problema técnico, burocrático ou alguma banalidade do cotidiano que está atazanando a sua vida. Se a resposta começa com “veja bem”, pode desistir: o seu problema não tem solução.

“Veja bem, consertar o defeito do carrinho é possível. Mas eu não posso garantir que ele vai continuar andando”. Ou: “Veja bem, eu entendo o seu ponto de vista, mas você precisa entender o meu. Tem misto-quente e queijo quente, mas não dá pra fazer presunto quente”.

Por ser uma expressão da linguagem oral, o Veja Bem não a utiliza tanto nos blogs, mas o seu espírito é facilmente reconhecível. “Entendi o que você quis dizer, mas o problema principal não é esse”, começa o comentário. “Vou explicar”, prossegue, antes de desfiar todo o seu conhecimento sobre o assunto que ele julga ser o principal.

Muito educado, o Veja Bem tenta consolar o blogueiro ou mostrar o caminho certo que o texto deveria tomar. “Não adianta você ficar pegando no pé do Ronaldo. O problema não é ele. É a estrutura do futebol brasileiro”.

Paternal, o Veja Bem trata o blogueiro como alguém que precisa adquirir experiência, conhecimento e tarimba antes de escrever sobre determinados assuntos. “Em matéria de BBB, você é um iniciante”, escreveu Boninho, em seu Twitter.

Às vezes, o Veja Bem surge com o objetivo de moderar as confusões. Dirigindo-se a outros leitores, que estão se atacando por causa de algum assunto mais polêmico, ele tenta me socorrer. “Será que vocês não entenderam? O texto do Mauricio não é sobre espiritismo, mas sobre um filme”. Nestas horas, só posso dizer: “Veja Bem, muito obrigado”.

Compartilhe:

Tipos de leitor – o Psicólogo de Botequim

Ele entende tanto de psicologia quanto eu, ou seja, nada, mas adora deitar sabedoria. “Inveja mata”, ele escreve, interpretando um comentário sobre Silvio Santos. “No fundo, você queria ter o sucesso dele”, observa, depois de ler um texto sobre Galvão Bueno. “Mas você nunca vai chegar nem perto”.

Ousado, às vezes, o Psicólogo de Botequim tenta me convencer a deitar no divã. “Não consigo te entender. Um dia você fala mal de ‘Insensato Coração’, no outro dia elogia uma cena. Qual é a tua?”

Mas, com frequência, irritado, perde a paciência: “Você não gosta de nada, meu!!! Qual é o seu problema?” Só falta me receitar um medicamento: “Por que você insiste em criticar a novela se você não gosta dela? Muda de canal, cara!”

Diferentemente de Ubaldo, o Paranóico, que enxerga conspirações nos textos, o Psicólogo de Botequim acha que o problema é de ordem intima, mesmo. “Está na cara que você é gay”, ele diagnostica, depois de ler um texto sobre Rodrigão, do BBB 11.

Como se estivesse em uma relação terapêutica de verdade, o Psicólogo de Botequim assegura sigilo em seu trabalho. No caso, o dele. Quase sempre anônimo, ele julga ser capaz de me interpretar, mas não quer que eu saiba nem mesmo o seu nome.

Em tempo: para ler outros textos desta série basta clicar ao lado direito do blog, em categorias, no item Tipos de leitor.

Compartilhe:

Tipos de leitor – o Falando com o Ídolo

Conheço este leitor desde os tempos em que trabalhei no “Lance!”, entre 1997 e 98. O jornal era apenas um suporte para o Falando com o Ídolo mandar recados, fazer pedidos e se comunicar diretamente com seu craque preferido.

Recebíamos muitas cartas como esta: “Dodô, eu moro em uma rua em frente a sua. Já joguei bola com seu irmão e gostaria de ganhar uma camisa sua com autógrafos de todos os jogadores do São Paulo”. Ou: “Viola, gostaria de assistir um treino lá no CT”.

Escrevendo sobre televisão, recebo atualmente muitos e-mails e comentários do Falando com o Ídolo. “Xuxa! Não ligue pra quem torce contra. O Roberto Carlos (cantor) é o Rei e você continua sendo a Rainha. Torço por você”, escreve uma leitora. “Não dá bola para quem fala mal de você, Silvio. Você é o maior comunicador da televisão brasileira”, recomenda outra. “Galvão, você é dez”, elogia outro.

Tenho grande simpatia pelo Falando com o Ídolo. Querendo ou não, ele acredita que o blogueiro (ou o site ou o jornal) para quem ele envia as suas mensagens pode ser um canal de comunicação com quem, de fato, ele está interessado em dialogar.

Durante o BBB11, o Falando com o Ídolo enviou muitas mensagens ao diretor e ao apresentador. “Tenho uma ideia que pode ajudar a levantar novamente o programa, Boninho. Me dá uma chance de te mostrar”. “Bial, adoro tudo que você fala. Você é a alma do BBB”.

Alguém poderá dizer que o Falando com o Ídolo é ingênuo. Talvez. Realmente, parece ingenuidade querer falar com alguém que você admira por intermédio de um blog. Mas nestes tempos velozes e furiosos, não deixa de ser uma expressão de afeto que, ao menos, reconforta quem a lê.

Em tempo: para ler outros textos desta série basta clicar ao lado direito do blog, em categorias, no item Tipos de leitor.

Compartilhe:

Tipos de leitor: Ubaldo, o Paranóico

Eis um tipo resistente, difícil de ser convencido, esteja você falando de política ou futebol, desastres naturais ou acidentes do destino. Ele (ou ela) está sempre procurando sentidos ocultos nos textos, enxergando teorias da conspiração onde há apenas opinião. Sempre acha que, por trás do que lê, existem intenções disfarçadas, com propósitos não revelados.

Quem, como eu, escreve ou lê sobre televisão na internet,  conhece Ubaldo, o Paranóico de longe. Ele é o sujeito que vê manipulação e segundas intenções em todos os textos. “Você é pago para falar mal da Globo”, escreve ao ler alguma crítica negativa à líder de audiência. E acrescenta: “Nunca vi um texto seu falando bem da Globo”.

Dias depois, ao trombar com algum texto elogioso a programa da emissora que ele julgava ser perseguida pelo blogueiro, muda de opinião. Radicalmente: “Você é pau mandado da Globo”, grita.

Naturalmente que a paranóia de Ubaldo é democrática. Com frequência, ele vê perseguição a outras emissoras também. “A Globo te paga para falar mal da Record”, escreve. “Por que você persegue o ‘CQC’? Assiste outra coisa”, propõe outro.

Ubaldo, o Paranóico, é parente do Maníaco da Censura, um tipo identificado e retratado com muita perspicácia por meu colega Leonardo Sakamoto. “O Maníaco é um leitor que se enxerga como vítima de um complô universal, pois acredita que escreveu um comentário revolucionário e que – céus! – foi limado pelo cretino do blogueiro”, escreveu ele.

Além de ver tramóias nos textos do blogueiro, Ubaldo frequentemente reclama que seus comentários foram censurados. Quando localizo no blog o comentário que ele julgava suprimido, ele retorna com um pedido de desculpas, seguido de alguma nova estocada. “Pelo menos você não me censurou, mas esta sua perseguição ao Marcelo Tas está passando dos limites”.

Semana passada, cai na besteira de misturar futebol e televisão num mesmo texto. Elogiei o “Globo Esporte” de 1º de Abril e a piada que fez sobre o título nunca alcançado da Libertadores pelo Corinthians. A conspiração contra o Timão foi o tema de inúmeros comentários, como este:

“Vejo que as regras de comentário só valem para corintianos. Os demais podem usar caixa alta, usar palavrões, insinuações falsas. É por esses tipos de imparcialidade que a imprensa brasileira é tida como sensacionalista e tendenciosa.” É isso aí.

Em tempo: Para quem não sabe, o verdadeiro “Ubaldo, o Paranóico” é uma invenção genial do cartunista Henfil (1944-1988), em parceria com o crítico musical Tarik de Souza. Criado em 1975, o personagem representava as angústias dos autores, e de muitos conhecidos, sobre as marchas e contramarchas da ditadura militar.

Contra a opinião de especialistas que entendiam, na época, que o regime militar iria abrandar a repressão e levar o país de volta à democracia, Ubaldo tinha medo de um retrocesso, achava que estava sendo vigiado e poderia ser preso e torturado.

Um resumo com os melhores desenhos de Henfil dedicados ao personagem pode ser visto no livro “A Volta de Ubaldo, o Paranóico” (Geração Editorial, 134 págs., R$ 32)

PS. Quem quiser ler os outros textos da série Tipos de Leitor basta clicar aqui ou, na lateral direita do blog, em Categorias, no último item incluído.

Atualizado às 15h40

Compartilhe:

Tipos de leitor: o Professor Pasquale

Todo mundo conhece bem este tipo, presente em qualquer blog e no Twitter. Não importa o assunto. O importante é a discussão estar quente. É quando ele aparece para, com alguma superioridade, observar: “Como é que vocês querem discutir política se não sabem escrever português corretamente?” Ou: “Aprendam primeiro a escrever EXCEÇÃO antes de opinar”. Ou ainda: “Não é DESCORDAR e sim DISCORDAR. Maldita inclusão digital!”

De fato, a caixa de comentários dos blogs é um terreno fértil para identificar problemas recorrentes no uso da língua portuguesa. O que me incomoda no Professor Pasquale não é esta sua preocupação com a gramática e a ortografia, legítima, por sinal, mas o tom de superioridade e arrogância que muitas vezes adota.

Há maneiras e maneiras de corrigir publicamente os erros alheios. Já escrevi uma vez sobre este episódio, mas não custa repetir. É um belo exemplo, na minha opinião, sobre como agir com cordialidade em casos de erros de português em espaços públicos. Deu-se no final de 2007, se não me engano.

A ESPN Brasil exibia o “Bate-bola – segunda edição”. O apresentador João Carlos Albuquerque informou que Kaká havia acabado de ser premiado com a Bola de Ouro, o tradicional prêmio concedido pela revista “France Football” ao melhor jogador do ano. O programa então mostrou uma entrevista gravada com o jogador, ao longo da qual Kaká falou da alegria de ter sido escolhido e informou: “Esse prêmio vai para a minha sala de TROFÉIS”.

A entrevista prosseguiu por mais alguns instantes até que a transmissão voltou para o estúdio. Albuquerque tomou a palavra e falou (cito de cabeça): “Esse é um programa assistido por muitos jovens. Então, temos também uma função educativa. O plural de palavras terminadas em ‘éu’ é sempre ‘éus’. Chapéus, troféus, réus e assim por diante”.

Sem citar Kaká e o seu atentado gramatical, Albuquerque deu uma grande lição, ao vivo – mostrando que um bom jornalista precisa ter cultura e jogo de cintura, além de consciência sobre o seu papel num país com tantas deficiências quanto o Brasil.

Cheguei a cogitar, quando comecei a escrever em blog, corrigir erros crassos de leitores sem avisar. Mais do que o tempo que isso me custaria, desisti da ideia por achar que seria uma interferência indevida na comunicação.

É um tema complexo e delicado. No Twitter, cheguei a fazer algumas observações públicas sobre erros cometidos por pessoas famosas. Não faço mais. Percebi que muita gente se sentia ofendida pela correção de mancadas alheias.

Em tempo: Sou amigo do professor Pasquale Cipro Neto, que conheci na redação da “Folha” na década de 90 e reencontrei inúmeras vezes, a última na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Acho o seu trabalho exemplar. Ao batizar um “tipo de leitor” com o seu nome quis prestar uma homenagem a ele.

PS. Quem quiser ler os outros textos da série Tipos de Leitor basta clicar aqui ou, na lateral direita do blog, em Categorias, no último item incluído.

Compartilhe: