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Ratinho socorre Eduardo Bolsonaro com entrevista camarada no SBT

Mauricio Stycer

02/11/2019 00h22

Ratinho entrevista Eduardo Bolsonaro em seu programa. Foto: Lourival Ribeiro/SBT

Sempre com o microfone aberto para políticos no poder, Ratinho este ano está especialmente generoso com o governo Bolsonaro e o universo que gira em torno dele. Desde que voltou de férias, em março, o apresentador recebeu oito convidados no quadro "Dois Dedos de Prosa" – seis deles bolsonaristas de carteirinha (veja a lista no fim do texto).

O mais recente foi Eduardo Bolsonaro. Apenas 24 horas depois de ser duramente criticado da esquerda à direita por falar abertamente sobre a possibilidade de volta do AI-5, levando alguns partidos a defenderem a cassação do seu mandato, o filho do presidente foi recebido para uma conversa amena com o apresentador do SBT.

Todas as 21 perguntas feitas por Ratinho nos 11 minutos da entrevista foram muito fáceis. "Levantadas de bola", como se diz no jargão jornalístico. Pior, o apresentador insistiu num erro crasso da técnica de entrevista, que é fazer perguntas que já trazem a resposta embutida, deixando para o entrevistado apenas a missão de concordar ou discordar. Alguns exemplos:

. "Ligaram o nome do presidente à morte de Marielle Franco. Foi uma irresponsabilidade?"
. "Quer dizer, pra quem torce pelo presidente, já está acostumado, eu acho. Quem votou no Jair Bolsonaro sabe como ele é. Teve gente que achou que o presidente passou da conta. Você achou?"
. "O porteiro pode ter sido induzido ao erro?"
. "Uma simples investigação policial já tinha resolvido o problema na hora, né?"
. "Você acha que setores da mídia fazem isso para desacreditar o presidente? Toda essa perseguição…"
. "Alguns deputados afirmaram que não existe chance de um novo tsunami Bolsonaro em 2022. Você acha que o Bolsonaro ganha de novo em 2022?"
. "Você acha que existe alguma conspiração contra o governo?"
. "Você acha que está tendo uma conspiração?"

Em diferentes momentos da entrevista, Ratinho explicitou a sua ligação com o governo. Por exemplo, ao fazer este comentário:

"A inflação tá descendo, a economia estabilizada, o dólar descendo, o que mais tá acontecendo no Brasil? Juro desceu lá embaixo, nunca foi tão baixo! A Bolsa de Valores subindo. Investimentos vindo. Só da Arábia Saudita, US$ 40 bilhões. E vários investimentos. Todos os Estados diminuindo a violência. Quer dizer, o país está indo relativamente bem, mesmo com tudo acontecendo no mundo. Você acha que é uma perseguição pessoal a Jair Bolsonaro?"

Nas eleições de 2018, o filho do apresentador, Ratinho Júnior, foi eleito governador do Paraná com apoio de Bolsonaro. Em fevereiro e março deste ano, Ratinho foi escolhido pelo governo federal como um dos garotos-propaganda de ações publicitárias em apoio à reforma da Previdência. Em setembro, junto com outras celebridades, foi nomeado "embaixador do turismo brasileiro".

Ironicamente, o novo embaixador do turismo surpreendeu o público de seu programa, algumas semanas depois da nomeação, ao falar com um certo desprezo sobre uma espécie ameaçada de extinção na fauna brasileira: "Aquele mico-leão-dourado… Eles pegaram helicóptero, pegaram o mico-leão-dourado e leva o miquinho pra lá, miquinho pra cá. Se todos morressem, o que iria mudar pra nós? Nada".

No final da entrevista desta sexta-feira com Eduardo Bolsonaro, depois de perguntar se "a esquerda tá retomando o poder na América Latina?", Ratinho quis saber: "Não tem esse perigo no Brasil?" O deputado respondeu:

"Sempre há esse perigo. Costumo fazer uma comparação dessas condutas terroristas políticas a bactérias. Eles sempre estão ali. Eles só esperam reduzir a imunidade pra voltar ao poder. Então, a gente não pode descansar". Ratinho, então, replicou: "O presidente Bolsonaro não vai deixar a imunidade cair?" "Com certeza não", respondeu o filho do presidente.

O tema principal da entrevista, a declaração de Eduardo Bolsonaro sobre o AI-5 ("Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5"), foi tratado da seguinte forma:

Ratinho: "Me falaram que você falou do Ai-5…"
Eduardo: "É exatamente onde eu queria chegar, usar o espaço que o senhor está gentilmente me cedendo para falar para dizer que de maneira nenhuma eu cogitei em retornar o Ai-5. Talvez eu tenha sido um pouco infeliz de ter citado o AI-5. Se eu pudesse voltar atrás, eu não teria falado o Ai-5 porque eu acabei dando munição pra oposição ficar me metralhando."

"Dois Dedos de Prosa" em 2019

19.04 – Luciano Hang (15:22 minutos)
03.05 – Magno Malta (13:39)
04.06 – Jair Bolsonaro (55:38)
18.06 – Sergio Moro (53:55)
21.06 – João Dória (23:21)
02.08 – Abraham Weintraub (18:23)
13.09 – Wilson Witzel (18:01)
01.11 – Eduardo Bolsonaro (11:14)

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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