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Associação das emissoras de TV não comenta ataques de Bolsonaro à Globo

Mauricio Stycer

01/11/2019 05h01

O presidente Jair Bolsonaro durante a "live" no Facebook

Ao ofender o jornalismo da Globo com palavras pesadas e ameaçar não renovar a concessão do canal, o presidente Jair Bolsonaro foi criticado por diferentes entidades, como ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Mais do que as críticas destas associações, porém, chamou a atenção o silêncio da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Dois dias depois da "live" de Bolsonaro no Facebook, a principal entidade que representa os canais de TV, muito afinada com a Globo, ainda não comentou nada sobre o assunto.

Na terça-feira, o telejornal exibiu uma reportagem sobre as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), ocorrido em março de 2018. Segundo o JN, o porteiro do condomínio onde morava Bolsonaro à época disse em depoimento que alguém com a voz "do seu Jair" autorizou a entrada de um dos suspeitos da morte da vereadora no dia do crime.

O presidente usou palavras pesadas para se referir à reportagem ("patifaria", "canalha", "porra", "imprensa porca", "jornalismo podre", "nojenta" e "imoral"). Sobre a renovação da concessão da Globo, que ocorrerá em 2022, Bolsonaro disse que "tem que estar enxuto, tem que estar legal. Não vai ter jeitinho pra vocês, nem pra ninguém".

Fundada em 1962, a Abert tem justamente "a missão de defender a liberdade de expressão, em todas as suas formas, bem como defender os interesses das emissoras de radiodifusão, suas prerrogativas como executoras de serviços de interesse público, assim como seus direitos e garantias".

Uma dissidência da Abert, a Abratel (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), fundada em 1999, mais afinada com a Record, também não se manifestou sobre as declarações de Bolsonaro sobre a Globo. A entidade se diz "focada em defender os direitos constitucionais do serviço público de radiodifusão, a liberdade de expressão e a viabilidade operacional das rádios e televisões".

As palavras do presidente surpreenderam especialistas em telecomunicações, como mostrou uma detalhada reportagem do UOL sobre o processo de renovação de canais de TV.

Procuradas, nem a Abert nem a Globo responderam aos pedidos de comentários feitos pelo blog.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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