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Silvio Santos aprovou previamente pergunta sobre golpe de 1964 no programa

Mauricio Stycer

14/10/2019 16h40

Mesmo apresentando quadros de promoção comercial, como o "Bolsa Família", Silvio Santos surpreende. Neste domingo (13), por exemplo, a família que disputava prêmios no programa teve que responder a uma pergunta sobre um tema que dividiu opiniões este ano no país. "O que aconteceu no Brasil no dia 31 de março de 1964?"

Foram oferecidas quatro opções de resposta: "um massacre popular", "a proclamação da República", "um golpe militar" e "eleições diretas". Diante delas, só uma resposta seria possível: "um golpe militar". Cada um dos quatro participantes, porém, apostou em uma opção diferentes. A falta de conhecimento levou Silvio reclamar com o diretor do programa.

"Senhor diretor, isso aqui é um programa moderno. Como é que a gente vai saber o que se passou há 55 anos?" E a voz do diretor respondeu: "É história do Brasil." Silvio retrucou, em tom de deboche: "História do Brasil… Eu acho, na minha opinião, só pode ser a proclamação da República."

Todos riram e o diretor disse: "Não é". Silvio, didático, perguntou: "Então o que é?" O diretor respondeu: "Golpe militar." E Silvio emendou: "Golpe não é comigo."

Silvio Santos faz pergunta no quadro "Bolsa Família"

A pergunta chamou a atenção porque Silvio Santos tem manifestado grande apreço, entusiasmo mesmo, pelo governo de Jair Bolsonaro. E, segundo o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, o presidente não considera a tomada de poder pelos militares, em 1964, como um golpe. Em março Bolsonaro chegou a determinar "comemorações devidas" da data.

Em abril, alguns dias depois desta declaração, uma pesquisa do Datafolha mostrou que, para a maior parte das pessoas, o dia 31 de março de 1964, data do golpe que levou o país a um período de exceção de 21 anos, não deve ser comemorado. Ao contrário, deve ser desprezado.

A pergunta no "Bolsa Família", desta forma, apresentou o fato histórico de uma forma que contraria a visão do presidente. Como Silvio Santos tem dado seguidas demonstrações de simpatia por Bolsonaro, houve muitos comentários nas redes sociais. Mas, na prática, como o blog foi informado, é o próprio Silvio Santos que faz as perguntas deste e de outros quadros. E, na véspera das gravações, recebe o roteiro em casa e faz as mudanças que entende como necessárias.

Ou seja, não houve surpresa alguma para Silvio na pergunta. Apesar de toda a bajulação nos últimos onze meses, o apresentador e dono do SBT quis dizer que pensa diferente de Bolsonaro sobre o que aconteceu em 31 de março de 1964.

Neste mesmo domingo, vale lembrar, Silvio colocou no ar o hino da FEB (Força Expedicionária Brasileira) – e bateu continência ao ouvi-lo.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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