Blog do Mauricio Stycer

Por que a crítica detonou e o público comprou “O Outro Lado do Paraíso”

Mauricio Stycer

11/05/2018 15h13

Com números de audiência extraordinários, sem igual desde 2012, “O Outro Lado do Paraíso” chega ao final nesta sexta-feira (11) com um índice de rejeição entre os críticos que raramente se vê também. O que explica estes dois movimentos tão extremos? Por que a novela de Walcyr Carrasco atraiu tanto público e tantas críticas negativas ao mesmo tempo?

É preciso logo dizer que críticos não são capazes de influenciar números de audiência de um veiculo de comunicação de massa como a televisão. É preciso ser ingênuo ou pretensioso para acreditar no contrário. Eles têm outras funções, entre as quais, justamente, a de procurar explicar por que um programa de má qualidade faz tanto sucesso.

Em uma faixa horária com longa tradição em melodramas realistas, “O Outro Lado do Paraíso” optou por deixar de lado a lógica em situações-chave e abraçar soluções mágicas para os conflitos que criou. Inúmeras situações soaram anacrônicas, como se a novela se passasse em outra época, e não nos dias atuais. O autor reciclou, sem pudor, várias histórias conhecidas. Bons assuntos foram tratados de forma brutal, sem meios termos ou sutilezas. Os diálogos primaram pelo didatismo exagerado e pela pobreza.

Todas estas críticas foram feitas, neste blog e em outros, ao longo dos últimos sete meses. Não vou entrar em detalhes novamente, mas deixo algumas sugestões de leitura no final deste texto. Em essência, para a crítica, “O Outro Lado do Paraíso” se mostrou uma novela preguiçosa, que usou e abusou de truques batidos e ofereceu muito pouco para a reflexão do espectador.

É possível enxergar estes problemas que elenquei sob outra ótica – eles servem como chave para explicar os ótimos números de audiência da novela. Carrasco criou uma trama de vingança muito clara, com ótimas iscas para fisgar o espectador (o psiquiatra, o delegado, o juiz). A falta de lógica foi compensada pela entrega, ao público, do que ele queria ver – a vitória do bem sobre o mal. O didatismo e o coloquialismo ajudaram o espectador a se aproximar da trama. A reciclagem de temas não foi notada ou não incomodou – ao contrário, mostrou a eficácia de recontar as mesmas boas e velhas histórias.

“O Outro Lado do Paraíso” atraiu um novo público e o prendeu, sem decepcionar. Com estas suas qualidades e facilidades, entregou tudo que prometeu, capítulo a capítulo. Mostrou a força do folhetim na TV. É um grande mérito na TV aberta, cujo modelo de negócios é baseado em audiência e publicidade.

“Os críticos não entenderam a novela”, diz Walcyr

Em declaração ao site da Globo, Walcyr Carrasco, o autor de “O Outro Lado do Paraíso”, fez referência às críticas negativas que recebeu no período. Reproduzo abaixo o seu comentário:

“Atribuo o sucesso ao elenco, à direção e à estrutura da novela. Os críticos e analistas de TV não entenderam que ‘O Outro Lado do Paraíso’ retomou uma estrutura antiga, um melodrama tradicional, sem vergonha de ser, como há muito tempo não era feito. Tanto que foi declaradamente inspirada em ‘O Conde de Montecristo’, de Alexandre Dumas, um clássico, escrito inicialmente de forma folhetinesca. Sobre essa estrutura, surgiram os temas modernos, como violência à mulher e abuso sexual. Mas sempre dentro de uma estrutura ágil, rápida, como exige o folhetim. Os acontecimentos se sucederam, inclusive com situações declaradamente fantasiosas. Alguns críticos não entenderam isso, pois procuraram realismo em uma novela que nunca quis ser realista.”

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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