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Blog do Mauricio Stycer

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Versátil, Agildo Ribeiro se consagrou com um quadro para crianças

Mauricio Stycer

28/04/2018 18h19


Agildo Ribeiro (1932-2018) fez mais sucesso e será mais lembrado pelo trabalho com humor, mas era um ator preparado para todo tipo de desafio. Como disse Nelson Freitas, que também transita bem por todas as áreas, "ele não se limitava a ser o humorista, ele era um grande ator".

Não à toa, quem foi criança nos final dos anos 1960, início dos 70, conheceu Agildo Ribeiro contracenando com o Topo Gigio, num quadro infantil e inocente que ia ar no programa no "Mister Show" (1969-70), às quartas-feiras, às 20h30, na Globo.

"Nunca soube qual foi o critério do Boni e do Walter Clark que resolveram botar o Topo Gigio no meu ombro", contou em depoimento ao projeto Memória Globo. "Eles falaram: 'Nós temos um negócio que vai mudar a sua vida'. Fiquei fascinado." O ator já era do elenco de humor da emissora, desde os primórdios, em 1965, mas foi escalado para esta tarefa bem diferente da que fazia habitualmente.

E Boni & Clark estavam certos. O papel que coube à atriz Gina Lollonbrigida, na Itália, foi o primeiro grande sucesso de Agildo na televisão. "Agildinho, dá um beijinho de boa noite", pedia o ratinho, ao final de cada episódio. Com o fim do "Mister Show", a dupla ganhou uma sobrevida, entre 1970 e 71, no "Topo Gigio Especial", que ia ao ar aos sábados às 13h30. "Eu fui a Xuxa da época", disse Agildo, em uma entrevista ao "Fantástico", sobre o sucesso do quadro.

Filho de Agildo Barata (1905-1968), um dos líderes da revolta tenentista e militante do PCB, Agildo começou a sua carreira ainda na década de 1950. Atuou no teatro de revista, no rádio e fez inúmeros papéis no cinema. Mas foi na televisão, em programas de humor, que se consagrou. "Eu abro a boca e todo mundo ri", ele disse uma vez – e era verdade.

Foi no "Planeta dos Homens" (1976-82) que ganhou fama um de seus personagens mais marcantes, o professor Aquiles Arquelau, apaixonado pela atriz Bruna Lombardi, que pontuava suas observações com o bordão "coisa horrorosa". Eram aulas repletas de detalhes picantes e a ajuda de um personagem engraçadíssimo, que fazia "escada", o mordomo (Pedro Farah), a quem ele chamava de "múmia paralítica".

Ótimo imitador e criador de tipos, com o timing para a comédia, Agildo apareceu em praticamente todos os programas de humor que a Globo exibiu a partir da década de 1960, incluindo os pioneiros "TV0-TV1" e "Balança Mas não Cai", e também "Chico City", "Satiricom", além de "O Planeta dos Homens". Teve um programa com seu nome, "Estúdio A… gildo!", lembrando o teatro de revista, que durou apenas um ano, em 1982. Participou da "Escolinha do Professor Raimundo". E atuou por mais de uma década no "Zorra Total", onde reviveu o professor Aquiles (imagem acima).

O ator também teve passagens pela TV em Portugal, e no Brasil atuou na Band, SBT e Manchete, mas foi na Globo, principalmente, que passou a maior parte da carreira.

Agildo era um contador de histórias profissional. Em uma participação no "Jô Soares Onze e Meia", no SBT, em 1993, ele quase derruba Jô Soares da cadeira ao contar o caso da vendedora de enciclopédias que bateu no seu minúsculo apartamento, pela manhã. Veja aqui. Percebe-se que Jô já conhecia a história, mas não consegue parar de rir a ouvindo novamente.

Vai deixar saudades.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.