Blog do Mauricio Stycer

“É só uma novela”? Duas cenas de “O Outro Lado do Paraíso” mostram que não

Mauricio Stycer

08/02/2018 13h47


Sempre que escrevo sobre novelas no blog ou comento no Twitter, há leitores que criticam minha preocupação com o assunto. “É só uma novela”, costumam argumentar, querendo dizer: “é ficção”, “não tem importância”, “é uma bobagem”. Este desinteresse ou preguiça em enxergar o impacto que as novelas podem ter na vida das pessoas ainda me surpreende.

Veja, por exemplo, o capítulo desta quarta-feira (07) de “O Outro Lado do Paraíso”. Por causa do futebol, exibido em seguida, foi mais curto e registrou “apenas” 36,5 pontos de audiência em São Paulo – um resultado ruim para uma novela que vem tendo médias de 40 pontos. Mas sabe o que este número significa? Que cerca de 7,3 milhões pessoas assistiram à novela da Globo em São Paulo na noite passada.

Projete este resultado para o PNT (Painel Nacional de Televisão), que reúne a audiência de 15 grandes centros urbanos, e podemos chutar que cerca de 25 milhões de pessoas assistiram ao capítulo de quarta-feira da trama de Walcyr Carrasco.

Não é “só uma novela”. Nem só uma “obra de ficção, sem compromisso algum com a realidade”, como a Globo informa ao final de cada capítulo, mas o programa que tem o maior alcance no país. O impacto que produz nos espectadores é inegável. Não é possível ignorar ou querer negar isso.

Por esta razão, entendo perfeitamente os protestos de psicólogos em relação à trama de Laura (Bella Piero). O seu trauma de infância, causado por violência sexual, está sendo tratado por Adriana (Julia Dalavia), uma advogada nos seus 20 anos, que usa métodos de “coaching” e hipnose para ajudar a jovem a se “curar”.

Parece evidente que a novela está passando uma ideia errada sobre um problema gravíssimo. É ficção? É. O autor tem o direito de inventar o que quiser? Tem. Mas os psicólogos também estão no direito deles de se preocuparem com os rumos desta história.

Isso sem falar, como mostrou a jornalista Cristina Padiglione, que houve um merchandising, uma ação paga, por trás desta trama.

O mesmo vale para outra trama, a do atentado sofrido pela juíza Raquel (Erika Januza). Atropelada por Rato (Cesar Ferrario), ela foi diagnosticada pelos médicos com uma lesão irreparável na coluna. Ou seja, não poderia mais andar. Porém, a vidente Mercedes (Fernanda Montenegro) a “curou” no capítulo desta quarta.

“Que a chama desta vela alcance o milagre de curar as pernas desta moça. É o que eu peço”, disse Mercedes após “ver” a situação da juíza. “Eu vos peço piedade. Nossa Senhora Aparecida, mãe que nos cria, cura essa moça, cura essa moça. E alcance a vossa graça. Amém”.

Enquanto ela dizia estas palavras, no leito do hospital, Raquel levitou. Na sequência, a juíza disse ao namorado, Bruno (Caio Paduan): “Bruno, teve alguém aqui? Eu senti uma presença. Não sei. Uma paz, uma emoção. Tô com vontade de chorar… Eu senti uma coisa no meu corpo, na minha coluna. Um toque. Como se fosse um ser de luz. Um anjo. Ai, minha perna… minha perna formigou”. E Mercedes, à distância, acrescentou: “Agradeço, com humildade, não ter permitido que essa tragédia acontecesse”.

Ora, “é só uma novela”, dizem muitos espectadores. Mas o que essa cena pode sugerir a milhares de pessoas? Que a fé é capaz de curar danos que a ciência considera irreversíveis. Que pessoas com deficiência devem alimentar esperanças em milagres, em “um ser de luz”. Entendo perfeitamente, por isso, que muita gente tenha considerado a cena um desrespeito, uma exploração indevida do drama alheio.

Não é “só uma novela”.

UOL Vê TV: Sete coisas que irritam em “O Outro Lado do Paraíso”

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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