Blog do Mauricio Stycer

Livro que inspirou “Cidade Proibida” mostra como a Globo errou com a série

Mauricio Stycer

28/11/2017 05h01


Antes da estreia de “Cidade Proibida”, tentei ler “O Corno que Sabia Demais”, livro que inspirou a série da Globo, mas ele estava esgotado e sumido até dos sebos. O lançamento este mês de uma nova edição desta HQ confirmou o que eu suspeitei ao assistir aos primeiros episódios: a adaptação para a televisão está muito equivocada.

Wander Antunes, criador do detetive Zózimo Barbosa e autor das histórias de “O Corno que Sabia Demais”, dá a dica logo na introdução do livro. No início, ele imaginou que o seu detetive era uma espécie de Sam Spade, o protagonista de “O Falcão Maltês”, um dos clássicos da literatura noir americana, escrito por Dashiell Hammett (1894-1961) e vivido no cinema, de forma marcante, por Humphrey Bogart (1899-1957).

Mas, desenvolvendo as histórias, Antunes se deu conta que Zózimo bebia em outras fontes – a bagunça brasileira, Nelson Rodrigues e, sobretudo, o Amigo da Onça, personagem genial do cartunista Péricles Maranhão (1924-1961), cujas histórias eram publicadas na revista “Cruzeiro”.

Em outras palavras, o Zózimo de Wander Antunes é um detetive particular sacana, abusado, às vezes amoral, “primo distante” do Amigo da Onça. Não é engraçado nem galã, como o personagem interpretado por Vladimir Brichta. A atmosfera que ele vive, no Rio de Janeiro dos anos 50, não tem glamour. Os bares parecem “sujos”, as traições são intensas – muito diferente do clima asséptico da série da Globo.

O delegado Paranhos de “Cidade Proibida” tem pouco paralelo com o tipo das histórias de Antunes. Ailton Graça criou um personagem meio cômico, espalhafatoso, muito longe do sujeito que faz alguns serviços sujos para o Zózimo da HQ.

O mesmo acontece com Bonitão. José Loretto desenvolveu um personagem igualmente cômico, teatral, sem relação com o tipo meio trágico dos quadrinhos. Marli (Regiane Alves), a prostituta apaixonada por Zózimo, é uma criação de Mauro Wilson, o roteirista da série.

Alguém poderá dizer que a Globo não tinha nenhuma obrigação de ser fiel ao espírito do detetive Zózimo Barbosa original. É verdade. Não tinha mesmo. Mas, por opção do diretor Mauricio Farias, a série nasceu desidratada, sem o que a história e os personagens têm de melhor e mais provocativo.

“Cidade Proibida” resultou numa série morna, sem força, com um tom cômico que pode torná-la mais fácil e aceitável ao grande público. Mas lendo “O Corno que Sabia Demais” (editora Noir, 100 págs., R$ 34,9), fica claro o tamanho do desperdício. Leia o livro.


Comentários são sempre muito bem-vindos, mas o autor do blog publica apenas os que dizem respeito aos assuntos tratados nos textos.

Siga o blog no Facebook e no Twitter.

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Blog do Maurício Stycer
Topo