Blog do Mauricio Stycer

Ordens de Boni, merchan pioneiro e outras revelações sobre a história da TV

Mauricio Stycer

24/11/2017 05h01

Misto de grande reportagem e almanaque, “Biografia da Televisão Brasileira” reúne centenas, talvez milhares, de informações inéditas. São quase mil páginas divididas em dois volumes com histórias de bastidores desde a inauguração da TV Tupi, em 1950, até os dias de hoje.

Flavio Ricco, colunista do UOL, e José Armando Vannucci, roteirista do “Domingão do Faustão”, assinam juntos a obra (editora Matrix, 928 págs., R$ 99,90). São 54 capítulos, recheados de depoimentos de centenas de entrevistados. Parte do livro busca relatar o desenvolvimento histórico da televisão e parte é focada nos gêneros que compõem a grade (novelas, jornalismo, humor, música, séries etc).

“Biografia da Televisão Brasileira” revela detalhes sobre o nascimento das principais emissoras, a criação de programas icônicos, a contribuição de inúmeras figuras importantes e, também, os acidentes e erros cometidos nestes 67 anos.

É muito material e, obviamente, não dá para resumir em um texto do blog. Mas, a título de aperitivo, selecionei sete boas histórias contadas por Ricco e Vannucci, algumas já conhecidas, outras inéditas. São elas:

1. O primeiro merchan em novela

Exibida pela Tupi entre novembro de 1968 e novembro do ano seguinte, “Beto Rockfeller é um marco da teledramaturgia nacional. A novela de Bráulio Pedroso deixou de lado os melodramas ambientados em cenários remotos para apostar nas aventuras de um antiheroi paulistano, contemporâneo, altamente sedutor e malandro. Luiz Gustavo, que viveu o protagonista, conta no livro que negociou pessoalmente com o fabricante do Engov um contrato para mencionar a marca, por conta própria, em cena.

2. Memorandos de Boni

“Biografia da Televisão Brasileira” reproduz duas das famosas mensagens internas enviadas por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho à época em que era o principal executivo da Globo. Na primeira, de abril de 1987, enviada a Daniel Filho, que era o diretor da Central Globo de Produção, responsável pelas novelas, Boni observa que “a tela da televisão é pequena para a grande maioria dos brasileiros” e, por isso, detalha como devem ser os cenários, mobiliário, objetos de cena e figurinos. É uma aula. O outro, de abril de 1994, não tem destinatário, mas critica as tentativas de imitação da linguagem “nervosa”, copiada da MTV (veja acima).

3. Marketing de guerrilha

Proibida de exibir “Roque Santeiro” em 1975, a Globo escalou uma reprise de “Selva de Pedra” (1972) para ter tempo de produzir uma nova novela (“Pecado Capital”). A Tupi estreou naquele ano “A Viagem” (imagem acima), de Ivani Ribeiro e, para promovê-la, fez um anúncio que tripudiava da reprise que a Globo foi obrigada a exibir: “Assista a uma novela inédita com capítulos inéditos”.

4. Recuo estratégico

Dois anos depois, em 1977, ao lançar “Éramos Seis”, a Tupi se rendeu ao sucesso que “Locomotivas” fazia na Globo e mudou o horário planejado de exibição. E, honestamente, reconheceu a razão da mudança (veja acima). Anos depois, Silvio Santos repetiria a estratégia da Tupi com a minissérie “Pássaros Feridos”, que o SBT só exibiria “depois da novela”.

5. Um diálogo entre Faustão e Roberto Marinho

Pouco antes de estrear na Globo, em 1989, já com contrato assinado, Fausto Silva foi convidado para um almoço com Roberto Marinho. E aproveitou para advertir o dono da Globo que usaria palavras que poderiam ser consideradas chulas. “Quero que o senhor entenda que quando falo ‘pentelho’ estou usando o adjetivo, e não o substantivo”, disse. “Ah… então você é o pentelho”, teria respondido Marinho, entrando na brincadeira. “Não, é o senhor!”, respondeu Faustão.

6. Um diálogo entre Dercy Gonçalves e Silvio Santos

Convidada a apresentar “Fala, Dercy” no SBT, a cantora e humorista se deu conta, ao assinar o contrato, que o documento não estabelecia uma duração. “Silvio, até quando vai isso?”, perguntou. “Até a morte. Fique tranquila, fique tranquila. Vai até a morte”, respondeu ele. “A minha ou a sua?”, quis saber Dercy.


7. Walcyr e Negrão debatem “beijo gay” em novelas

O livro relata uma reunião ocorrida na Globo, em 2016, dentro do fórum de dramaturgia, criado para discutir novelas. A certa altura, Walther Negrão perguntou: “O beijo gay é obrigatório em novelas? Se for, eu estou fora! Não é a minha praia e não sei escrever isso”. Walcyr Carrasco entrou na conversa: “Você é contra, mas o que salvou minha novela (“Amor à Vida”) foi um gay, o Felix!”, disse. “Não concordo! O que salvou foi seu talento para escrever comédia e a capacidade para reverter a situação. Seria assim com qualquer personagem”, replicou Negrão.

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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