Blog do Mauricio Stycer

Exagerando no drama, “Tempo de Amar” deveria se chamar “Tempo de Sofrer”

Mauricio Stycer

16/10/2017 05h01


Alcides Nogueira define “Tempo de Amar” como “um clássico folhetim, uma novela de amor com muitas reviravoltas”. É um resumo correto, mas não diz tudo. No ar há três semanas, a nova trama das 18h30 tem testado a paciência do espectador com uma sequência de dramas pesados e melosos. Brinco que a novela deveria se chamar “Tempo de Sofrer”.

Ambientada em 1927, entre o interior de Portugal e o Rio de Janeiro, a história gira em torno do amor impossível entre Maria Vitória (Vitória Strada), a menina rica, filha de um produtor de vinhos, e Inácio (Bruno Cabrerizo), o jovem humilde de coração puro.

O romance proibido começa em cantinhos escondidos da aldeia Morros Verdes e vai prosseguir do outro lado do Atlântico, para onde ele parte com a esperança de ganhar dinheiro e ter uma vida digna com a amada.

Enquanto Inácio viaja para o Rio, Maria Vitória descobre estar grávida. Revoltado, seu pai, José Augusto (Tony Ramos), a interna num convento, onde ela tem o bebê, e sofre com a ausência de cartas do amado. Para desespero da mocinha, a criança é dada em adoção pelas freiras. E ninguém sabe o seu destino.

Enquanto isso, Inácio é assaltado e agredido no Rio. Perde a memória e fica cego. Cego? Pois é… Quem o resgata é Lucinda (Andrea Horta), filha de um médico, altamente traumatizada – ela provocou um acidente que causou a morte da mãe e deixou uma terrível cicatriz em seu rosto. Para ficar com o mocinho cego, Lucinda mentirá e o manipulará.

Em Portugal, José Augusto se arrepende do que fez com a filha, e tenta reencontrá-la, mas é enganado por Delfina (Letícia Sabatella), sua governanta e amante.

O patrão e a governante têm uma filha, Tereza (Olívia Torres), mas a jovem desconhece quem é seu pai. Delfina faz de tudo para que o amante trate Tereza como filha – e para isso, boicota os esforços de José Augusto de encontrar a neta e a filha.

Maria Vitória fugiu do convento rumo ao Rio de Janeiro. No navio, é assediada por um político poderoso, o deputado brasileiro Teodoro Magalhães (Henri Castelli). A jovem reage e acaba presa a bordo.

Enquanto o casal de protagonistas sofre capítulo atrás de capítulo, todos os demais personagens, no Rio e em Portugal, também vivem dramas pessoais pesados. Todos.

Não houve, até agora, uma única cena bem-humorada ou divertida na novela, nem há qualquer personagem ou núcleo de humor na trama.

Não queria me alongar no resumo, mas não posso deixar de citar o romance cheio de culpas entre a cantora de fado Celeste Hermínia (Marisa Orth) e o conselheiro Francisco (Werner Shünemann). Ele é casado com Odete (Karine Teles), que sofre de problemas psiquiátricos e tem surtos frequentes, nos quais é amarrada na cama e grita desesperadamente.

Com a chegada de Maria Vitória ao Rio, o que deve ocorrer esta semana, “Tempo de Amar” vai prosseguir mostrando o drama da jovem (vai parar num bordel) e de seu amado (manipulado por Lucinda).

Este longo resumo teve a intenção de mostrar que o “típico folhetim” de Alcides Nogueira tem recorrido aos efeitos mais fáceis e conhecidos para emocionar o espectador. Não há espaço para imaginar nada em “Tempo de Amar” – todo o drama é oferecido de bandeja, sem sutileza ou preparação alguma.

É uma novela antiga, e não porque se passa em 1927, mas por subestimar o público e adotar procedimentos preguiçosos com o objetivo de agarrá-lo. O ambiente político e social da época, até o momento, não teve função alguma na trama – serve apenas de pano de fundo. A única ousadia vista até agora diz respeito à escalação de dois estreantes, Vitória Strada e Bruno Cabrerizo, como protagonistas.

A Globo deve ter razões para acreditar que o público gosta de histórias de amor impossíveis, repletas de drama e sofrimento, com reviravoltas que trazem mais dificuldades e dor aos protagonistas. Mas com tantos bons enredos para serem levados ao ar, em 2017, optar por este revela comodismo e muita falta de ambição.

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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