Blog do Mauricio Stycer

Rezende: O repórter investigativo foi maior do que o polêmico apresentador

Mauricio Stycer

16/09/2017 19h25

Marcelo Rezende (1951-2017) já era um apresentador consagrado quando lançou, em 2013, “Corta Pra Mim – Os bastidores das grandes investigações” (editora Planeta, 240 págs.). O título faz referência a um dos seus bordões à frente do “Cidade Alerta”, mas o conteúdo do livro passa longe do seu trabalho no estúdio da Record.

A obra reúne exemplos do que Rezende demonstra ser o seu maior orgulho profissional – o trabalho como repórter de jornal, revista e televisão, entre 1969 e 2001, em veículos como “Jornal dos Sports”, “O Globo”, “Placar” e Rede Globo.

O jornalista relata, com indisfarçável alegria, investigações complexas e arriscadas de que participou, além de grande “furos” e histórias que causaram impacto real, com prisões de criminosos, exposição de violências e esclarecimentos de mistérios.

Um dos lemas do Rezende repórter sempre foi: “O medo é a porta de entrada para a coragem – assim como a valentia é a porta de entrada para a covardia”. Ou seja, é preciso combinar audácia com bom senso em doses iguais ao se aventurar pelo jornalismo investigativo.

Outra palavra de ordem do repórter era: “Sempre que me aparece uma barreira pela frente é mais uma razão para eu tentar ultrapassá-la”.

Uma famosa investigação de Rezende, nos anos 1990, ajudou a colocar em evidência os crimes cometidos por uma família de Rondônia, incluindo um deputado federal, que acabou cassado. Outra reportagem célebre expôs a “máfia do DPVAT”, um grupo que fraudava o seguro obrigatório cobrado de donos de veículos.

Mas foi a exibição da violência policial na Favela Naval, em Diadema (SP), que teve a maior repercussão da carreira do repórter. No livro, Rezende conta detalhes da negociação para a compra, por R$ 5 mil, da fita que expôs os crimes cometidos pelos PMs, entre quais aquele que era conhecido como Rambo.

Outro grande feito do jornalista foi a exibição, em 1998, no “Fantástico”, de uma longa entrevista com o criminoso apelidado de “Maníaco do Parque” – ele disse ao repórter ter matado 107 pessoas. A matéria, com 43 minutos de duração, registrou pico de 53 pontos no Ibope, conta ele no livro.

A última parte da obra mostra o nascimento do Rezende apresentador. À frente do programa “Linha Direta”, que ele ajudou a criar, em 1999, experimentou a fama e a popularidade. E não gostou muito do que viveu na época:

“Talvez o ‘Linha Direta’ tenha me dado uma grande projeção e tenha me ensinado uma das coisas mais importantes que aprendi na vida: a vaidade não pode crescer mais do que a razão ou mais que a sensibilidade de perceber os outros. E, no meu caso, o ego se sobrepôs a tudo”.

Antes de sair da Globo, Rezende ainda conseguiu emplacar duas grandes reportagens sobre o enriquecimento de dirigentes de futebol (Eurico Miranda e Ricardo Teixeira), mas o seu ciclo na emissora, bem como o trabalho de repórter, estava chegando ao fim.

O livro termina aqui e não dá conta desta segunda fase de sua carreira, iniciada em 2002, quando assume o comando do “Repórter Cidadão”, na RedeTV!. Segue-se, aí, uma grande movimentação do agora apresentador por várias emissoras. Passou pela Record, voltou para RedeTV!, esteve na Band e, em 2010, aportou mais uma vez na Record.

Fez reportagens especiais para o “Domingo Espetacular”, mas logo assumiu, em 2011, o comando do “Repórter Record” e na sequência, em 2012, o “Cidade Alerta”.

Em algum momento desta experiência como apresentador de um programa policial vespertino, com três ou quatro horas de duração, Rezende intuiu que era preciso atenuar a violência e a aridez do noticiário.

Introduziu humor no “Cidade Alerta”. Criou bordões (“Corta pra mim!” e “Bota exclusivo, minha filha, dá trabalho pra fazer”), fez piadas (muitas delas grosseiras) com os repórteres do programa e deu um tom de comédia para a parceria com Percival de Souza, experiente jornalista policial. Em suma, virou um personagem.

Vendo a audiência subir, causou polêmica inúmeras vezes. Foi acusado pelo Ministério Público, mais de uma vez, de estimular a violência na TV. Fez mau jornalismo em muitas ocasiões, como quando deu trela a boatos de que Andressa Urach tinha amputado uma perna. Enfim, cometeu erros que um programa com um pé no sensacionalismo está sempre sujeito a cometer.

Por conta do sucesso, Rezende se tornou uma celebridade, especialmente dentro da Record. Esteve em todos os programas da casa, mostrou a sua casa e contou a sua história várias vezes. Em 2014, no “Domingo Show”, disse que quando trabalhava na Globo tentou convencer a emissora a não atacar Edir Macedo.

Enfim, o livro “Corta Pra Mim” mostra que Marcelo Rezende é bem maior do que o “Cidade Alerta”. O volume termina com a promessa de que ainda tinha muitas histórias para contar. É uma pena a sua saída de cena com apenas 65 anos.

Abaixo uma entrevista que fiz com Marcelo Rezende, exibida em 29 de junho de 2011, pela TV UOL. Na época, ele estava apresentando o “Repórter Record”, aos domingos.

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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