Blog do Mauricio Stycer

Historiadora vê renovação de clichês na cena da independência de Novo Mundo

Mauricio Stycer

09/09/2017 05h01


A imagem que sempre representou a independência do Brasil foi aquela pintada por Pedro Américo (1843-1905), em 1888, e hoje guardada no Museu Paulista (conhecido como Museu do Ipiranga). É este quadro que inspira, por exemplo, livros escolares antigos assim como a cena do filme “Independência ou Morte” (1972), protagonizado por Tarcísio Meira.

Mas os autores de “Novo Mundo”, Thereza Falcão e Alessandro Marson, claramente optaram por deixar este clichê de lado na cena exibida no capítulo da última quinta-feira (7). Na visão da historiadora Daniela Landini, a imagem que inspirou os autores da novela foi outro quadro, “A proclamação da Independência”, pintado em 1844, por François-René Moreaux (1807-1860), em exibição no Museu Imperial, em Petrópolis.

No texto abaixo, a historiadora, que ressalva falar como espectadora, defende o seu ponto de vista.

Um personagem é a principal diferença entre os dois quadros: o povo

Por Daniela Landini

“Independência ou Morte”, de Pedro Américo, pintado em 1888, hoje no Museu Paulista

Dom Pedro vestido com o uniforme de gala, montado num imponente cavalo e cercado pela comitiva de guardas reais, empunha sua espada no alto da colina. O herói proclama a independência do Brasil.

A descrição acima compõe o imaginário de boa parte dos espectadores que assistiram na quinta-feira (7) ao capítulo da novela Novo Mundo. Isto se deve principalmente à importância que o quadro “Independência ou morte”, de Pedro Américo, ganhou nos livros de história. Por muito tempo a obra do pintor foi tida como uma reprodução fiel dos fatos de 1822.

“A proclamação da Independência”, de François-René Moreaux , de 1844, hoje no Museu Imperial

Para a surpresa daqueles que esperavam a imponente cena, “Novo Mundo” preferiu seguir uma outra versão dos fatos, mas não menos grandiosa em seu momento de clímax. No instante em que D. Pedro recebe as cartas do Rio de Janeiro e começa ler o discurso da imperatriz Leopoldina, a novela se distancia do icônico quadro de Pedro Américo e se aproxima de outro, menos conhecido, “A proclamação da Independência”, do francês François-René Moreaux. A presença de um personagem marca a maior diferença entre as duas obras: o povo.

Enquanto ouvimos “O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ele fará sua separação”, rapidamente a ação é tomada por pessoas que representam as camadas mais populares daquela sociedade. D. Pedro toma consciência que o único caminho é declarar a independência ali mesmo. Gesto comemorado por todos que estão em cena. Fica evidente a aproximação que o capitulo de quinta-feira fez com a obra do pintor francês.

No entanto, não é o caso de entender que um quadro seja mais verdadeiro que outro. Ambos são fantasiosos e têm compromisso com o momento em que foram criados. “Independência ou morte” é uma obra de 1888, feita por encomenda de D. Pedro II para a inauguração do Museu Paulista (popularmente conhecido por “Museu do Ipiranga”).

O pintor tentou ressaltar a grandeza do fato histórico e privilegia a imagem do herói monarca. À esquerda, na base da tela, está a figura do “caipira” que parece não compreender o acontecimento; O quadro de Moreaux é de 1844, feita a pedido do Senado Imperial. A obra destaca a figura de D. Pedro, mas, também, a multidão que o cerca.

O país havia passado recentemente por rebeliões que contestavam o poder, portanto, a ideia é criar a imagem de uma monarquia apoiada pelo povo. As pessoas se parecem com trabalhadores rurais (exatamente como a novela apresentou), porém, não há presença de indígenas ou escravos. É uma população branca.

Cena da proclamação da independência em “Novo Mundo”, exibida em 7/9/2017


A diferença entre a cena criada por Novo Mundo e a “A proclamação da Independência” se dá na quase totalidade dos figurantes ser negra ou mestiça. No entanto, repete a exclusão do escravo e do indígena (curioso, pois, em boa parte do enredo houve a tentativa de mostrar a importância dos nativos na formação do país).

Dessa forma, a novela, assim como os dois quadros já citados, também escolhe quem será o personagem importante da ação. O caso mais flagrante é a imperatriz Leopoldina, que, por exemplo, teve seu papel de participação equiparado ao de José Bonifácio (conhecido nada menos como o “Patriarca da Independência”).

Em vários momentos a novela fez referências aos acontecimentos atuais da política, e nada mais justo que a figura da mulher e a participação popular no processo político apareçam. “Novo Mundo” se passa em 1822, mas não se engane: seu diálogo é com 2017.

Top 10: O que deu certo, o que faltou e o que não funcionou em “Novo Mundo”

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Autores de “Novo Mundo” veem atualidade na cena da independência do Brasil

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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