Blog do Mauricio Stycer

Em livro, jornalista conta o que aprendeu ao ser demitido do “Fantástico”

Mauricio Stycer

14/08/2017 05h02

Os livros de autoajuda com dicas para o sucesso na carreira enfatizam, de um modo geral, os bons exemplos, os profissionais bem-sucedidos e as trajetórias vencedoras. O recém-lançado “Treze Meses Dentro da TV – Uma aventura corporativa exemplar” investe na direção contrária. O livro de Adriano Silva descreve um caso de fracasso – vivido pelo próprio autor.

“Minha crença é que relatos assim precisam circular mais. Porque são tão ou mais significativos que as histórias de sucesso”, anota ele depois de descrever os quase 400 dias em que atuou como chefe da redação do “Fantástico”, no Rio.

Entre o final de 2006 e o início de 2008, enquanto julgava que havia chegado ao “topo da profissão”, Silva foi motivo de piada interna, por conta de ideias ruins que deu, nunca teve responsabilidades muito claramente definidas, conviveu com um superior hierárquico lacônico e não recebeu nenhum apoio de quem esperava.

Com bastante franqueza e algum ressentimento, ele resume o livro como “o relato de um profissional que se viu diante de uma cultura empresarial e não encontrou encaixe – e uma reflexão sobre esta incompatibilidade”.

A maior originalidade de “Treze Meses Dentro da TV” (Editora Rocco, 256 págs., R$ 34,90) talvez seja o fato de ter como objeto central o mundo do jornalismo. É raro encontrar descrições tão detalhadas sobre o seu funcionamento interno.

Com formação em marketing, e nenhuma experiência como repórter, Silva fez carreira na editora Abril, a partir de 1998. Trabalhou na “Exame”, dirigiu a “Superinteressante” e comandou o Núcleo Jovem da empresa, responsável por revistas como “Capricho” e “Bizz”, entre muitas outras.

O jornalista da Abril que mais apostou em Silva, uma espécie de mentor dele, foi Paulo Nogueira (1956-2017), que em 2006 se mudou para a Editora Globo, onde ocupou a direção editorial das revistas da empresa. Sondado por Nogueira para seguir o mesmo caminho, ele respondeu que o seu maior interesse era trabalhar na TV.

Com a ajuda de Nogueira, Silva conta que entrou em contato com diretores da Globo no Rio. Luis Erlanger, então diretor de Comunicação, o apresentou a Carlos Henrique Schroder, então diretor de Jornalismo da emissora, e a Ali Kamel, então o número 2 do Jornalismo.

Numa conversa com Schroder, Silva disse que gostaria de trabalhar no “Globo Repórter”, mas foi convidado a ocupar um alto cargo no “Fantástico”, o segundo na hierarquia do programa. Só então ele conheceu Luiz Nascimento, que dirige a revista eletrônica dominical da Globo desde 1993.

Na página 110 do livro, Silva se dá conta de que muito do seu fracasso se deveu justamente à forma como entrou na emissora. “Uma contratação só dá certo quando parte de quem vai ser o seu chefe direto”, ensina.

Silva reconhece que outro problema grave era a sua total falta de experiência em televisão: “Como eu não era de TV, tinha que aprender sobre o veículo com meus subordinados. Esse era um flanco de grande fragilidade para mim”, admite.

“Eu tinha chegado por cima num lugar em que as pessoas costumavam vir de baixo, em que os líderes eram construídos dentro de casa, a partir da base, e não trazidos de fora”, elabora em outro trecho.

Um fato incomum, a respeito do qual Silva afirma só ter sido informado após assumir seu cargo, é que seria chefe da então editora Eugenia Moreyra, mulher de Nascimento. “Eu seria, portanto, chefe da mulher do meu chefe”, anota.

Sofreu rejeição geral. “Depois da reunião de pauta, boa parte da redação saía junta para almoçar. Nunca fui convidado”, lamenta. Num relato pueril, conta que buscou se aproximar de Álvaro Pereira Jr., o chefe da redação do Fantástico em São Paulo, lhe presenteando com um CD caseiro de sua banda de pop rock. “Eu me expunha com aquele gesto que, claro, acabou não rendendo nenhuma proximidade extra entre nós”.

Silva também reconhece o erro de ter enviado à direção de jornalismo da Globo, sem informar ao seu chefe, uma proposta de mudanças no “Fantástico”. É o que ele chama de um “bypass”, um gesto altamente condenável no mundo corporativo.

Ao longo dos 13 meses de sua experiência no programa, que vivia um período de “mormaço”, na sua visão, Silva pensou várias vezes em desistir – e hoje se arrepende de ter prolongado por tanto tempo a situação. “Passei um bocado do limite da dignidade”, diz. Em janeiro de 2008, foi comunicado pela direção de jornalismo da Globo de que vários dos problemas do “Fantástico” passavam por ele. E foi demitido.

Veja também
“Construa alianças” e outras 9 lições para sobreviver no mundo corporativo

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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