Blog do Mauricio Stycer

“MacGyver do SUS” é a aposta da Globo em Sob Pressão, série médica realista

Mauricio Stycer

25/07/2017 05h01


No episódio de estreia de “Sob Pressão”, que a Globo exibe nesta terça-feira (25), o cirurgião Evandro (Julio Andrade) descobre, diante de uma paciente grávida deitada na mesa de cirurgia, que o hospital está sem drenos. Ele deixa a sala, vai até a área externa e corta um pedaço da mangueira usada para limpeza e irrigação. Volta para a cirurgia, esteriliza o plástico, corta-o em dois pedaços e, com a ajuda da médica Carolina (Marjorie Estiano), insere o dreno improvisado no ventre da paciente.

A cena está descrita no livro que o médico Marcio Maranhão publicou com as suas lembranças de trabalho em um hospital público no Rio. A “gambiarra” que “Sob Pressão” mostra é uma espécie de atestado de brasilidade da série – os autores não aceitam comparações com séries médicas americanas.

“Sob Pressão” nasceu na produtora Conspiração como um projeto de série, que nunca saiu da gaveta. Em 2016, virou um filme, dirigido por Andrucha Waddington (a Globo o exibiu no último dia 10). Guel Arraes, diretor responsável por séries da emissora, enxergou no longa-metragem potencial para virar uma série e convocou Jorge Furtado (“Misteu Brau”, “Doce de Mãe”, “Nada Será como Antes”, entre muitas outras) para desenvolver o projeto.

A série que vai ao ar nesta terça já nasce com uma segunda temporada encomendada. A direção ficou a cargo do próprio Andrucha e de Mini Kerti, também da Conspiração. O roteiro de Furtado, que não tem relação com o projeto original da produtora, foi escrito em parceria com Antonio Prata, Lucas Paraíso e Marcio Alemão.

Além da consultoria de Maranhão e de outros seis médicos, todos os roteiristas fizeram “laboratório” em hospitais públicos no Rio e em Niterói, onde testemunharam situações de emergência, atos de heroísmo, e constataram a precariedade do sistema.

A julgar pelo primeiro episódio, “Sob Pressão” vai marcar um momento na TV. O UOL conversou com Furtado e Andrucha no Rio sobre a série. Abaixo trechos da conversa:

Referências na realidade

Andrucha Waddington: Nem adiantava se referenciar em séries americanas. Em hospital americano não falta nada. A gambiarra, o comprometimento dos médicos com aquela aparelhagem precária e, apesar da precariedade, eles serem bem-sucedidos, conseguirem salvar vidas, ou simplesmente exercer a sua profissão, é um comprometimento muito peculiar da nossa realidade.
Jorge Furtado: E as doenças também. Observando aquele hospital, a gente chega à conclusão que 80% das doenças são doenças da miséria. É gente que chega com tiro, é gente que não fez pré-natal, gente que caiu da moto sem capacete, que bebeu e caiu da laje. Se tivesse uma boa clínica de família, metade daquelas pessoas não estariam no hospital.
Andrucha: Tivemos o cuidado de não fazer uma série panfletária nem de denúncia. É uma constatação de realidade.
Furtado: É gente militante da saúde pública. Essa primeira temporada é curiosa porque não tem vilões. Eles são os antagonistas de si mesmos. Antiheróis.

A história de Evandro e Carolina
Furtado: As histórias chegam no hospital de ambulância. Nosso desafio foi criar uma história dos personagens (os médicos Evandro e Carolina) que fosse interessante também. Porque quando o cara trabalha num ambiente desses, ele não pode ter uma vidinha. Não tem graça nenhuma. Esses personagens tinham que ter uma vida interessante fora dali. Então, a gente criou essa história dos dois.

MacGyver do SUS
Furtado: É uma boa piada (da equipe de roteiristas).
Andrucha: Não é só piada, não. A quantidade de gambiarras que os médicos têm que fazer…
Furtado: Num dos dias em que estive no hospital, havia uma lista dos antibióticos disponíveis. Todos para uso via oral. Eram cinco remédios. Aí o médico disse: ‘Olha os meus pacientes.” Estavam todos entubados. “De que adianta esses remédios? Como é que vai tomar via oral?”

Humor da série

Andrucha: Foi uma coisa que veio muito bem na série. Dá um respiro.
Furtado: Que até te permite sofrer mais. Pegamos até leve. Os médicos dizem absurdos.
Andrucha: O anestesista apaga o paciente. Ele vai ficar assim por algumas horas. Sobre o que eles vão falar?
Furtado: Vão falar do churrasco de ontem, do jogo do Grêmio, de qualquer coisa. É preciso entender uma coisa. Para o cara que chega no hospital, aquele é pior dia da vida dele. Mas, para o médico, é mais um dia. Ele não pode ficar desesperado. É um dia normal. Atenuar com humor é realista.

Drama pesado
Andrucha: Não pode ter medo de assumir que o gênero da série é drama.
Furtado: Minha aposta é que o público quer ver isso. A primeira preocupação de qualquer pessoas, mostram as pesquisas, é a saúde.

Responsabilidade social
Furtado: Em cada episódio, tem um assunto principal. Abuso infantil, violência contra a mulher, doação de órgãos. Abuso infantil é uma epidemia. Estive em uma UTI de um hospital público no Rio e havia quatro casos naquele dia. A menina mais velha tinha 13 anos e a mais jovem, oito meses. Isso é todo dia. Por que é importante falar disso? Porque as crianças abusadas acham que é só com elas.
Andrucha: Ao final de casa episódio, vai aparecer um serviço, com informações sobre aquela questão tratada na ficção.
Furtado: Está aumentando o número de adolescentes com Aids no Brasil; jovens simplesmente pararam de usar camisinha. Isso é assunto da série. Outra: o Brasil está vivendo um surto de tuberculose, gonorréia e sífilis porque não tem penicilina. E não tem sabe por quê? É barato demais. Os laboratórios não têm lucro e pararam de fabricar. E não só no Brasil.

Caráter documental

Andrucha: A série inteira é inspirada na realidade. É a ficção imitando a realidade, literalmente.
Furtado: Tem algumas histórias que, se fosse ficção, eu não aceitaria no roteiro. Como a da mulher que chegou no hospital reclamando de uma picada de marimbondo nas costas. Ela estava com alguma dificuldade de respiração. Fizeram uma tomografia, ela estava com uma bala de fuzil no coração.
Andrucha: A gente até mudou para uma bala de 38. “Vai parecer ficção”. Mas a história real é bala de fuzil.
Furtado: Como é que aconteceu isso? Eles não sabem. A mulher foi de ônibus pro hospital.

Pouco sangue
Furtado: Uma questão que discutimos muito é a da quantidade de sangue que seria mostrada. O que vai mostrar?
Andrucha: Mas chegamos numa métrica boa. O bisturi entra, brotou o sangue, corta. Não fica horas… A gente não está fazendo uma dissertação sobre o sangue.
Furtado: Tem gente que não pode ver sangue.
Andrucha: Tem gente que desmaia.
Furtado: Mas não pode fazer uma série médica sem sangue.

Filme versus série

Andrucha: Tem duas mudanças importantes. Tem mais pressão na série e mais gente no hospital. A gente tinha optado no filme em fazer um hospital mais abandonado.
Furtado: Um dos problemas do sistema público de saúde é a lotação dos hospitais.
Andrucha: Apesar de aquele tipo de hospital (do filme) existir, a gente colocou na série mais ritmo, para ter uma pegada de série de TV, e superpopulação dentro do hospital.
Jorge: O personagem do Stepan Nercessian fala isso: “O grande problema aqui é “boca de tubarão e rabo de minhoca”.

Expectativa
Furtado: 30 pontos (risos). Espero uma audiência boa.
Andrucha: Um resultado positivo seria fazer muitas temporadas. Porque é tão raro e legal você poder, através do drama, abordar assuntos importantes para a sociedade. Esse produto permite que a gente traga tanta coisa à tona. Meu desejo é que a gente consiga ficar dez anos no ar.
Furtado: Quero ver o que vai acontecer com os telefones de serviço que vamos mostrar ao final de cada episódio. Saber se está servindo, sendo útil.

Horário depois da novela

Furtado: Santa Gloria Perez!
Andrucha: Agora é com a gente mesmo. Porque a Gloria já fez o dela e está entregando lá em cima.

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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