Blog do Mauricio Stycer

Último "Programa do Jô" tem agradecimento a Silvio Santos e ironia com Boni

Mauricio Stycer

17/12/2016 05h01

Joultimoprograma3Foram 14.426 entrevistas desde o primeiro programa no SBT, em 1988. Bastante emocionado, Jô Soares encerrou o último “Programa do Jô” dizendo: “Daqui a pouco a gente volta”.

Gravado nesta sexta-feira (16) em São Paulo, o programa foi marcado por emoção, agradecimentos a Silvio Santos e ironias com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, executivo que comandou a Globo por três décadas.

A gravação começou às 18h30. Jô foi recebido de pé pela plateia, que o aplaudiu longamente e gritou o seu nome. “Estamos estreando…”, disse rindo. “Hoje, 16 de dezembro de 2016, dia da última apresentação do ‘Programa do Jô'”, começou.

Todo de branco, com uma gravata borboleta colorida, Jô fez um longo discurso de agradecimento. Por dez minutos, falou das pessoas que marcaram o programa. “Quero agradecer particularmente a Silvio Santos, que abriu esta porta para mim. Este programa mudou a minha vida”, disse.

O apresentador agradeceu também “às figuras anônimas, cujas entrevistas modificaram a vida deles e também a minha”, falou, emocionado.

Ironia com Boni

Jô mencionou ainda três figuras a quem deu crédito por sua volta à Globo, em 2000: a então diretora-geral Marluce Dias, o diretor Erico Magalhães e o diretor de jornalismo na época, Evandro Carlos de Andrade (1931-2001). Este último, contou, “foi responsável por fazer a aproximação”.

Jô deixou a Globo rumo ao SBT em 1988 contra a vontade de Boni, então o chefão da emissora. Jô lembrou a Ziraldo, o convidado do último programa, a reação enfurecida do executivo à sua saída – Boni proibiu a veiculação de comerciais com o apresentador na Globo. Jô reagiu com um artigo violento no “Jornal do Brasil” e um famoso discurso na entrega do Troféu Imprensa. Os comercias voltaram a ser veiculados por decisão de Roberto Marinho, disse.

Pouco depois de sua saída da Globo, contou, foi procurado por Roberto Marinho. Foram jantar. O dono da emissora relatou a Jô um diálogo que teve com Boni. “Eu vou jantar com meu amigo Jô porque eu não tenho nenhum problema com ele”. Boni teria se justificado dizendo: “Mas, doutor Roberto, o senhor estava na Itália quando ele saiu”. Marinho então ironizou: “Mas na Itália não tem telefone?”.

“Sem plateia eu não existo”

Em outro momento que manifestou emoção, Jô falou da sua banda, que o acompanha há 28 anos, de dois roteiristas desde os primórdios, Hilton Marques e Max Nunes (1922-2014), este já falecido. “Ele pegou a Ponte Aérea até os 90 anos para vir aqui. Nunca faltou”.

Um último agradecimento foi dedicado à plateia. “Sem plateia eu não existo”.

joultimoprogramaziraldoZiraldo “entrevistou” Jô durante a conversa. Ouviu o apresentador explicar por que sempre tratou todos os seus convidados de forma informal, como “você”. “Quando fui entrevistar o (ex-ministro Otavio Gouveia de) Bulhões, decidi que não fazia sentido chamar ministro de ‘senhor’ e motorista de ‘você’, porque, no Brasil, isso é uma coisa de classe social. É a maneira de me aproximar das pessoas”, contou. “É uma das coisas que mais me orgulho de ter estabelecido: um tratamento igual para todo mundo. Chamo o ministro do Supremo de você”.

ô disse que seu amigo Otto Lara Rezende (1922-1992) se surpreendeu: “Ele me ligou e falou ‘você chamou o doutor Bulhões de ‘você’, não pode!’. Uma semana depois, entrevistei o Luís Carlos Prestes e fiz a mesma coisa. Na primeira vez, ele me olhou. Com 15 minutos de conversa, ele estava à vontade e declarou ‘Olga foi a grande paixão da minha vida’. Otto me ligou e disse: ‘você tem razão, nunca vi Prestes tão à vontade’”, relembrou o apresentador.

Antes de encerrar a gravação, Jô voltou a fazer uma ironia com Boni. Recontou uma história relatada em uma festa da Globo, logo após a sua volta à emissora, em 2000.

Jô disse que decidiu comprar uma máquina de xerox. O vendedor foi à sua casa e levou o aparelho. A certa altura, ofereceu um café a ele. E pelo interfone, pediu à empregada, chamada Marluce (mesmo nome da então diretora-geral da Globo), que trouxesse o café. “O seu Boni deve ter uma inveja do senhor”, disse o vendedor. “Agora só me falta achar um motorista chamado Roberto Irineu”.

Diferentemente do que ocorria nas gravações normais, a do último programa não contou com plateia de estudantes ou caravanas do interior. Apenas convidados da Globo, de Jô e de sua equipe assistiram ao programa final. Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Globo, prestigiou o apresentador. Também estavam presentes o diretor de Entretenimento Ricardo Waddington e o diretor comercial Gilberto Leifert.

Ao final, Jô exibiu um trecho da entrevista que fez com Roberto Marinho, exibida na estreia do “Programa do Jô” na Globo, em 2000. “Estou encantado, pela sua popularidade, pela sua credibilidade, estou satisfeitíssimo de ter você aqui”, diz o empresário.

Este texto foi publicado originalmente no UOL Televisão.

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Polêmicas, dramas, raridades… Relembre algumas das entrevistas inesquecíveis de Jô

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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