Topo
Blog do Mauricio Stycer

Blog do Mauricio Stycer

Problema de Cora não é a nova atriz, mas o rumo confuso da vilã em Império

Mauricio Stycer

09/12/2014 09h20

ImperionovacoracomendadorBrevemente apresentada no capítulo de sábado (06), a nova Cora, rejuvenescida, começou a dizer a que veio nesta segunda-feira (08). Contracenando com Alexandre Nero, Marjorie Estiano teve direito a um longo monólogo na cena de abertura do capítulo.

Era uma sequência muito esperada – o momento em que o comendador José Alfredo iria tirar a virgindade da vilã para, em troca, recuperar o seu sonhado diamante cor de rosa. Cora se "guardou" por décadas para aquele momento.

imperiocoramarjorieA situação, absurda em si, exigiria muito de qualquer atriz. Marjorie Estiano, que substituiu Drica Moraes às pressas na última sexta-feira, adotou um tom grave, dramático, deixando claro que aquele era talvez o momento mais esperado da vida da personagem.

Aguinaldo Silva colocou na boca do personagem de Nero algumas frases enigmáticas, no esforço de explicar melhor ao espectador a troca de atrizes e, também, deixar em aberto novas possibilidades para o futuro. "Cora, ou seja lá o diabo que você for", diz o comendador depois de se refazer do susto de ver a vilã tão mais jovem.

imperioasduascoras"É a Cora mas não é", ele diz ao motorista Josué (Roberto Birindelli), tão surpreso quanto o patrão. "Parece que vai virar a Cora que você conheceu, aquela bruxa".

Achei convincente a estreia da atriz na pele de uma personagem 20 anos mais velha. Aliás, não vejo problemas nesta substituição. É verdade que Aguinaldo Silva poderia matar a personagem, mas a solução da troca de atrizes, ainda mais tendo a oportunidade de escalar justamente a profissional que viveu Cora na primeira fase, não atrapalha em nada, na minha opinião, o andamento da novela.

O problema é outro. Desde a divulgação da sinopse de "Império", sempre houve motivos para acreditar que a vilã Cora iria roubar a cena e ser a grande personagem da novela.

Figura sinistra e soturna, manipuladora e invejosa, capaz de prejudicar a própria irmã, Cora impressionou muito no prólogo. Tudo indicava que a vilã iria decolar e roubar a cena na fase contemporânea da história. E isso não aconteceu

Cora se tornou um tipo difícil de entender. Não que seja ambígua, uma característica interessante num vilão, mas sim irregular. Como se o autor tivesse dúvidas sobre que caminho seguir com a personagem.

Na sua obsessão pelo comendador José Alfredo, Cora era de uma fria objetividade, até se descobrir que, na verdade, fez tudo por uma paixão reprimida por ele. Cruel, foi capaz de cometer um assassinato, mas ao mesmo tempo é desenhada como uma figura ridícula, que cheira cuecas alheias e solta gases depois de beber champanhe.

imperiocoraperpetuaComo bem observou Nilson Xavier no início de setembro, há algo de Perpétua (Joana Fomm), a beata falsa moralista de "Tieta", na Cora de "Império".

Mas a caricatura de vilã na novela de 1989 não combina muito com a história de 2014. É esse ruído permanente, entre a personagem má e decidida, por um lado, e a "bruxa" de desenho animado, por outro, que atrapalha Cora e confunde o espectador.

O blog está no Twitter, Facebook e Google+.

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.