Blog do Mauricio Stycer

Um papo de bar sobre um filme menos conhecido de Eduardo Coutinho

Mauricio Stycer

03/02/2014 13h19

homemquecomprouomundo

A morte trágica de Eduardo Coutinho mexeu com todo mundo que admirava o cineasta e a sua obra. O jornalista Fernando Vives, em post no Facebook, se lembrou de ter assistido a um debate com Coutinho, em dezembro de 2002, mediado por mim, a propósito do filme “Edifício Master”. Depois do debate, naquela noite especial, levei Coutinho e o também cineasta Ugo Giorgetti ao Bar Balcão, onde tomamos um chope.

Quando comemorou 10 anos de vida, em 2004, os proprietários do bar, em São Paulo, produziram um livro comemorativo, realizado com a colaboração de clientes fieis. O jornalista Beto Guedes, um dos sócios, me encomendou um texto.

Escrevi, então, uma crônica, lembrando daquele dia que levei Coutinho ao bar e como acabei descobrindo que ele dirigiu um filme pouco conhecido, “O Homem que Comprou o Mundo”, em 1968. O outro personagem central desta crônica é o escritor Mario Prata, que na época também frequentava muito o Balcão (um bar cuja principal característica é um balcão gigante, de 25 metros). Reproduzo abaixo o texto:

O Homem que Comprou o Mundo

Noite de 19 de dezembro de 2002 (obrigado ao Google pela lembrança). Encerrado um debate sobre o filme “Edifício Master”, no Artplex, em São Paulo, entendo que minhas atribuições como coordenador do evento se estendem ao final da noite. Convido Eduardo Coutinho, o diretor do filme, e o cineasta Ugo Giorgetti, que participou do debate, para uma cerveja. Coutinho diz que precisa acordar cedo no dia seguinte, mas aceita o convite. Rumo ao Balcão, naturalmente.

A primeira impressão de Coutinho não é a melhor possível. Acha o bar muito paulista. Mas logo entende a originalidade do Balcão e sugere: seria legal se os bancos estivessem colocados sobre trilhos. Uma esteira rolante. Dessa forma, as pessoas conseguiriam se movimentar ao longo de todo o balcão, sem se levantar, apenas movendo uma manivela, e poderiam conversar com diferentes frequentadores. Ideia para o futuro.

Sentamos no fundo, em frente ao barman. Exatamente onde está sentado Mario Prata (sou obrigado a dizer que nas minhas lembranças etílicas, Balcão e Mario Prata são quase a mesma pessoa). Apresento Coutinho a Prata, que imediatamente manda:

— Sou um grande fã de “O Homem que Comprou o Mundo”.

Coutinho faz cara de espanto. Prata vai além e diz que ele e um grupo de amigos cultuam o filme em São Paulo. Coutinho acende mais um cigarro (ele fuma quatro maços por dia) e diz que não é possível. Prata insiste. Cético, Coutinho tenta mudar de assunto. Prata se empolga:

— O filme é genial.

Coutinho cede e começam a conversar sobre o filme. Me distraio com outros assuntos, mas tenho certeza que ouço Coutinho prometer mandar uma cópia em vídeo de “O Homem que Comprou o Mundo” para Prata. Dou uma gargalhada com os meus botões. Conversa de bar. Imagina…

Um mês depois, acho, reencontro Prata no Balcão. Esperando minha amiga Cynara Menezes, pergunto sobre Coutinho. E ele me informa:

— O Coutinho mandou a fita.

Penso: não é possível.

Cynara chega. Deixo Prata de lado. A certa altura, meia-noite mais ou menos, ele se intromete na conversa e propõe:

— Vocês querem ir lá em casa ver “O Homem que Comprou o Mundo”?

Declino.

Duas semanas depois, num sábado, reencontro Prata na feijoada da Lana, na Vila Madalena. “E quando é que vamos ver ‘O Homem que Comprou o Mundo’?”, pergunto, como quem diz: “E aí, tudo bem?” “Pode ser amanhã”, ele me convida. Domingo à noite. Prata, uma moça (sua namorada? uma amiga? não lembramos) e eu, no seu apartamento. Ainda estou chegando quando ele me avisa que já pediu um sushi. Tudo bem.

A operação de ligar o vídeo não é das mais simples, mas depois de uns 10 minutos eis que começo a descobrir o que é “O Homem que Comprou o Mundo”. Muita gente trabalhou neste filme. Flavio Migliaccio e Marilia Pêra são os protagonistas. Raul Cortez, Milton Gonçalves, Hugo Carvana, Paulo Cesar Pereio, Rogéria, Jô Soares (sem fala) tem papéis. Coutinho dirigiu por acaso. Substituiu alguém que desistiu do projeto na última hora.

O filme é de 1968. Um delírio total. Passa-se em um país que, em tudo, lembra o Brasil, mas se chama Reserva 17. Um humilde cidadão desse país (Migliaccio) vê um homem de turbante (parece um indiano) ser atacado e corre em sua direção. À beira da morte, o indiano dá um cheque no valor de 100 mil strikmas para Migliaccio. Com esse dinheiro ele se torna um homem capaz de comprar o mundo.

E atrai a atenção não apenas dos soturnos governantes da Reserva 17, mas também dos Estados Unidos e da União Soviética, representados igualmente de forma alegórica. As duas potências enviam agentes à Reserva 17 na tentativa de sequestrar Migliaccio, que só está preocupado em encontrar sua noiva (Marília Pêra), com quem vai casar.

Nada faz muito sentido, as cenas rocambolescas se sucedem e os personagens aparecem e desaparecem sem dar satisfação. Além de divertido, é especialmente prazeroso imaginar o diretor de “Cabra Marcado para Morrer” e “Edifício Master” por trás das câmeras de “O Homem que Comprou o Mundo”. Devo essa a Prata e ao Balcão.

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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