Blog do Mauricio Stycer

Livro de Edir Macedo apresenta uma terceira versão da venda da Record por Silvio Santos

Mauricio Stycer

06/09/2013 05h01

Nem tanto pelo valor, US$ 45 milhões, mas por suas implicações, a compra da Rede Record pelo bispo Edir Macedo, em 1989, é um dos acontecimentos mais importantes da história recente da televisão brasileira.

Ao lançar a segunda parte de sua biografia, “Nada a Perder 2”, o fundador da Igreja Universal resolveu apresentar a sua versão dos fatos ocorridos há 24 anos. É a terceira versão publicada a respeito – as outras são dos outros dois protagonistas do negócio, Silvio Santos e a família Machado de Carvalho, que venderam a televisão para Macedo.

Apresento abaixo, em ordem cronológica, como cada um conta esta história.

A versão de Silvio Santos
Publicado em 2000, “A Fantástica História de Silvio Santos”, de Arlindo Silva, é até hoje a principal fonte oficial sobre a trajetória do Homem do Baú. Interessado em adquirir uma emissora desde o início da década de 70, conta o autor, Silvio comprou 50% das ações da Record em 1973.

Na época, com contrato na Globo, onde ocupava oito horas da programação dominical da emissora, Silvio não podia ser dono de outra emissora. Por isso, a compra foi feita por meio de um testa-de-ferro, Joaquim Cintra Gordinho, fazendeiro em Amparo. Em 1975, o empresário ganhou do governo Geisel a sua primeira concessão, a TVS, canal 11, do Rio. Em 1981, ganhou do governo Figueiredo (foto abaixo) quatro outros canais, dando início ao que viria a ser o SBT.

Segundo Arlindo Silva, Silvio pensava em vender a sua participação na Record desde 1984. Um dos candidatos, Manoel Francisco Nascimento Britto, do “Jornal do Brasil”, associado a João Havelange e à rede Televisa mexicana, chegou a dar um sinal de US$ 1 milhão, mas desistiu do negócio, em 1985. Vários outros candidatos apareceram, segundo esta versão, incluindo a Abril, o grupo O Dia, Orestes Quércia e Edevaldo Alves da Silva (Rádio Capital).

Em 1989, diz o livro, o SBT estava com um endividamento que correspondia a três meses de faturamento. Foi quando a empresa intensificou os esforços para a venda das ações da Record.

“Até que apareceu um grupo de pastores para falar comigo”, diz o executivo Luiz Sandoval no livro. “Eram dois ou três e chegaram dizendo que queriam comprar a Record. Eu, sem menosprezar ninguém, dei o preço e as condições de pagamento. (…) Após alguns dias, voltaram com um cheque de US$ 5 milhões. A esta altura, já estávamos falando não só pela nossa parte, mas também pela parte da família Machado de Carvalho. Em pouco mais de uma semana, o negócio estava concluído”.

A versão da família Machado de Carvalho
No livro “O Marechal da Vitória”, de Tom Cardoso e Roberto Hockmann, publicado em 2005, é possível encontrar a segunda versão desta história. Os autores confirmam a história que Silvio, desde que ganhou a concessão do SBT, queria vender a sua parte da Record. Também informam que, por um acordo firmado com a família Machado de Carvalho em 1976, Silvio só dava palpites nas finanças da Record, sem apitar no conteúdo.

Cardoso e Hockmann contam uma história diferente sobre a quase venda das ações de Silvio para Nascimento Britto e Havelange. Segundo eles, foi o dono do SBT que desistiu do negócio, avaliado em US$ 23 milhões, ao descobrir que a Televisa estava envolvida na história. “Não interessava ao animador vender sua parte das ações a uma empresa tão forte como a Televisa”, anotam.

A decisão de vender a Record, segundo este relato, foi tomada pela família, e não por Silvio Santos. “Afundada em dívidas, sem dinheiro para novos investimentos e trabalhando ao lado de um sócio que não via a hora de se livrar das ações, Paulo Machado chamou Paulinho de Carvalho (foto) e os netos Paulito e Alfredinho e jogou a toalha: – Chegou a hora de vender a Record. Façam um bom negócio.”

Na versão de Cardoso e Hockmann, os interessados na compra foram os mesmos que Arlindo Silva cita em seu livro (Abril, Quércia, Radio Capital), com uma diferença: “Todas as transações esbarravam no estilo pouco ortodoxo de negociar de Silvio Santos”.

Até que, em outubro de 1989, dizem, o empresário Alberto Haddad, filiado ao PRN (Partido da Reconstrução Nacional), que sustentava a candidatura de Fernando Collor à Presidência, fez “uma proposta irrecusável” em nome de “uma nova corporação que ele preferia manter em sigilo”, e não de “pastores”, como escreve Arlindo Silva. Uma parte do relato coincide nos dois livros: a negociação durou poucos dias. Haddad ofereceu US$ 45 milhões pela Record.

Ainda segundo o livro “O Marechal da Vitória”, Silvio Santos só aceitou vender depois que Haddad revelou o nome de seu cliente: a Igreja Universal do Reino Deus. No dia 9 de novembro, escrevem, Odenir Laprovita Vieira assinou um cheque de US$ 1 milhão, a título de sinal (no livro sobre Silvio Santos seriam US$ 5 milhões). Pelo acordo firmado, a igreja só teria autonomia nas decisões operacionais da Record depois de pagar a última parcela, em janeiro de 1990.

No dia 5 de janeiro, data do pagamento da última parcela, de US$ 5 milhões, Laprovita Vieira pediu um prazo maior para quitar a prestação e, ao mesmo tempo, exigiu “plenos poderes para tomar qualquer decisão operacional” dentro da Record. As negociações, segundo o livro, se arrastaram por dois meses, sem chegar a um termo final.

Numa reunião em março, num escritório de Silvio Santos, as partes voltaram a negociar. “Quando se ensaiava mais um desentendimento entre os negociantes, um baixinho, careca, de óculos, levantou-se da cadeira irritado e jogou o cheque sobre a mesa: – Meu nome é Edir Macedo. Vamos acabar logo com isso! Aqui estão os cinco milhões.”

A versão de Edir Macedo
Escrito com Douglas Tavolaro, vice-presidente de jornalismo da Record, Macedo sugere em “Nada a Perder 2” que foi ajudado, com informações privilegiadas, sobre a crítica situação financeira da Record, por um funcionário de Silvio Santos. “A empresa faturava US$ 2,5 milhões por ano e acumulava US $ 20 milhões em contas a pagar. No fechamento do balanço do ano de 1989, a Record não sobreviveria”. E acrescenta: “Quem nos revelava esses dados era Demerval Gonçalves, homem de confiança do Grupo Silvio Santos na época e responsável pela venda, hoje executivo da Rede Record.”

Macedo não cita em momento algum do livro o nome de Alberto Haddad, mencionado várias vezes por Cardoso e Hockmann como o enviado da Igreja Universal para negociar a compra. O bispo só fala no pastor Laprovita Vieira, que viria a se eleger deputado federal em 1990. “Eu gostaria que o senhor fosse para São Paulo comprar a Record. Vai em frente e feche o negócio, seu Vieira”.

A versão de Macedo coincide com as duas outras num ponto: a negociação foi rápida. Mas o criador da Universal dá um tom mais cinematográfico ao negócio. “Eu sabia que, se aparecesse logo de imediato, a negociação seria superfaturada ou desfeita possivelmente por preconceito. (…) Por isso, seu Vieira (foto) comparecia em todas as reuniões com um maço de cigarro à mostra no bolso da camisa. Ninguém desconfiou que era eu quem estava por trás de uma compra tão importante”.

O impasse surgido, segundo Cardoso e Hockmann por causa da última parcela, refere-se, na versão de Macedo, à segunda parcela do sinal. Na tal reunião em que revelou a sua identidade, o bispo diz que foi “disfaçado como motorista” de Vieira e, ao se levantar, sua frase teria sido outra: “Já podemos parar com a discussão. Eu sou o bispo Macedo. Sou eu quem estou à frente da compra da Record. Vamos resolver de uma vez por todas esta situação.” Depois de ouvir o valor que devia, disse: “Não tem problema, negócio fechado”.

Segundo Macedo, Silvio Santos não estava presente nesta reunião e, posteriormente, em encontro cara a cara, teria dito que queria desistir do negócio. “Não quero o dinheiro de volta. Quero quitar a dívida”, respondeu o bispo ao dono do SBT.

Macedo revela que foi ajudado pelo Plano Collor, decretado logo após a posse do novo presidente, em março de 1990. Sem recursos para pagar as dívidas da Record, Silvio Santos aceitou um “acordo urgente” para concluir o negócio. Ainda segundo o relato em “Nada a Perder 2”, a desvalorização do dólar, que se seguiu, provocou uma queda no valor das prestações que devia. Antes do final de 1992, diz Macedo, a dívida estava integralmente paga. Sua explicação? “Cada um acredite no que desejar. Eu tenho certeza absoluta que foi a ação de Deus.”

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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