Blog do Mauricio Stycer

O que levou Gloria Perez a perder o rumo de "Salve Jorge"

Mauricio Stycer

18/05/2013 05h01

Muitos são os sinais de que Gloria Perez errou a mão em “Salve Jorge”, a novela das 21h da Globo com mais baixa audiência na história. Mas o que a levou a perder o rumo de forma tão gritante? Tenho algumas hipóteses. A principal é que o método que fez a fama da autora não tem como funcionar numa trama essencialmente policial.

Em suas novelas, Gloria sempre apostou na ideia de que o espectador aceita os maiores absurdos em troca do prazer de curtir uma boa história. “Todos nós precisamos sonhar. Sonhar faz parte das necessidades humanas. Se a novela cumpre essa função, já faz o seu papel”, ela disse uma vez.

Com enorme despudor (“Só os imbecis têm medo do ridículo”, dizia Nelson Rodrigues, um dos ídolos de Gloria), a autora tentou reeditar em “Salve Jorge” absurdos que caíram no gosto do público em “O Clone” e “Caminho das Índias”. E, de fato, ninguém mais se incomoda de ver o português como língua oficial na Turquia, nem a facilidade como as pessoas se locomovem entre Istambul e o Rio de Janeiro.

O problema é que a trama central de “Salve Jorge” era um enredo policial. E não há leitor ou espectador que aceite “sonhar” ou “voar” quando está acompanhando uma história do gênero. Pistas falsas, lançadas intencionalmente pelo autor, tudo bem. Mas erros, furos, incoerências, falta de nexo são inaceitáveis. Num sinal de que não entendeu o problema que criou, Gloria Perez enxergou “patrulhamento da criatividade” onde havia cobrança por lógica.

Inexperiente, talvez, no gênero, a autora acreditou que teria a cumplicidade do espectador em seus “voos”. Lógico que não teve. Ao contrário, virou motivo de chacota. Não vou repetir aqui lista de equívocos cometidos, seja pelos vilões, seja pelos policiais da trama. Mas tenho certeza que nenhum espectador com mais de 12 anos aceitou, sem se irritar, o desenrolar desta comédia de erros.

Para piorar, a autora errou na mão na caracterização de seus vilões. O texto que escreveu para a líder da gangue, Livia, tinha um tom involuntariamente cômico, que remetia ao “TV Pirata”. Russo, segurando um gatinho, parecia personagem de “Austin Powers”, uma paródia de James Bond. Irina, sempre sentada, foi a vilã mais bizarra da temporada. Só Wanda se salvou da comédia, talvez por mérito da atriz Totia Meirelles, que conseguiu transmitir humanidade ao personagem. Ainda assim, a personagem falou uma das frases mais cômicas da novela, ao se confrontar com a chefona no penúltimo capítulo: “Meu revólver é mais rápido que a sua seringa”.

Chama a atenção, também, o fato de Gloria Perez ser uma das poucas autoras da Globo a escrever suas novelas sem ajuda de colaboradores. Numa trama com mais de 90 personagens e capítulos de 50 minutos, seria inevitável que ocorressem os acidentes vistos em “Salve Jorge”.

Nunca uma novela teve tantos personagens “orelha”, escalados exclusivamente para contracenar como coadjuvantes de outros coadjuvantes. A lista é enorme: Cacilda (Rosi Campos) só contracenava com Aurea (Suzana Faini), Maitê (Ciça Guimarães) com Bianca (Cleo Pires), Julia (Cris Vianna) com Erica (Flavia Alessandra), sem falar no núcleo da Capadócia, com um sem número de personagens sem razão de existir.

Também foi motivo de piada, e ajudou no descrédito da novela, o sumiço sem explicação de uma série de personagens, a começar por Beto, o marido de Morena (foi morto, alguém disse), passando por Miro (Andre Gonçalves), Yolanda (Cristiane Oliveira) e Dalia (Eva Tudor), entre outros.

Diante das reclamações e protestos, Gloria Perez tentou manter a altivez, o que é elogiável. Sempre repetia que o pior que pode acontecer a uma novela é “a indiferença”. Demorou, porém, a se dar conta que sua novela havia se transformado em motivo de pilhéria. Foi quando começou a bater na tecla conspiratória de que havia gente recebendo para falar mal de “Salve Jorge”. Foi triste.

Para agravar ainda mais a situação, “Salve Jorge” padeceu de sérios problemas de produção e acabamento, inimagináveis em novelas deste horário. Erros de continuidade e cenas mal dirigidas chamaram a atenção do mais desatento dos espectadores, criando uma legião de “detetives”, que se divertiam vendo falhas na novela.

O último capítulo da novela repetiu todos os problemas mencionados aqui. A lista é enorme e merece até um outro texto. Mas cito alguns. A policial Jô algema Russo na cama e chama as prostitutas para se vingarem dele com a anuência da delegada Helô? O que aconteceu com Russo? E com Irina? Por que somente “tempos depois”, Theo e Morena voltaram da Turquia? O que ficaram fazendo lá?

Se o “Video Show” quiser, tem assunto para o quadro “Falha Nossa” até o final dos tempos.

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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