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O negro no futebol brasileiro e na novela

Mauricio Stycer

06/02/2013 15h54

"O caso de Carlos Alberto, do Fluminense. Tinha vindo do América, com os Mendonças, Marcos e Luis. Enquanto esteve no America, jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. Também Carlos Alberto, no America, não quis passar por branco. No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças na arquibancada, parar um instante, levantar o braço, abrir a boca num 'hip, hip, hurrah'.

Era o momento em que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.

Quando o Fluminense ia jogar com o America, a torcida de Campos Sales caia em cima de Carlos Alberto:

— Pó-de-arroz! Pó-de-arroz!

A torcida do Fluminense procurava esquecer-se de que Carlos Alberto era mulato. Um bom rapaz, muito fino."

A história de Carlos Alberto, jogador do Fluminense nos primeiros anos do século 20, está contada em "O Negro no Futebol Brasileiro", livro que Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, publicou em 1947, com prefácio de Gilberto Freyre. É uma entre as muitas histórias dolorosas e dramáticas que tratam do processo de popularização do futebol brasileiro, nascido como um esporte de elite, no final do século 19.

Esta história foi reencenada, com as devidas adaptações e simplificações, no capítulo de terça-feira (5) de "Lado a Lado", a novela das 18h da Globo, escrita por João Ximenes Braga e Claudia Lage. Bom de bola, o personagem Chico (César Mello), negro, é convocado por Albertinho (Rafael Cardoso) para ajudar o time dos riquinhos.

Assim como Carlos Alberto no Fluminense, Chico enche a cara de pó-de-arroz, o que chama a atenção de seus colegas de equipe e de Zé Maria (Lazaro Ramos), seu amigo. O jogador impressiona por seu talento e ginga. Dribla, faz gol de bicicleta e arma jogadas incríveis.

A reação negativa, inclusive por parte de colegas de equipe, é associada na cena a racismo. "Foi a única maneira que encontrei de ele não ser expulso. Ninguém ia aceitar um negro aqui jogando futebol. Agora que todo mundo viu o talento do seu amigo, não importa mais se ele é preto ou branco", diz Albertinho a Zé Maria.

Foi mais um bom momento de "Lado a Lado", uma novela que tem sido muito feliz ao apresentar um panorama histórico não muito conhecido em meio a um tradicional melodrama, com tudo a que tem direito.

Leia mais: Além de O Negro no Futebol Brasileiro", de Mario Filho, recomendo a leitura, para quem tem interesse sobre este período do futebol brasileiro, do excelente "Footballmania – Uma história social do Futebol no Rio de Janeiro, 1902-1930)", de Leonardo Affonso de Miranda Pereira.

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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