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Ira de corintianos não diminui a ousadia do “Globo Esporte”

Mauricio Stycer

02/04/2011 10h56

Para o bem e para o mal, a edição paulista do programa "Globo Esporte" se tornou nos últimos dois anos um exemplo das possibilidades de renovação do jornalismo na televisão. Editor-chefe e apresentador do programa, Tiago Leifert deu novo tom ao noticiário.

Descontraído, fazendo piadas, recorrendo a efeitos especiais (sonoros e de animação), inventando pautas com o propósito de divertir o espectador, o "Globo Esporte" elevou a sua audiência e transformou Leifert em referência no jornalismo global.

O programa, nesta sua nova fase, faz uma aposta arriscada, ao caminhar na fronteira do jornalismo com o entretenimento. Às vezes, a ultrapassa, deixando a informação em segundo plano para divertir. Mas com frequência faz bom jornalismo, sem a sisudez dos demais programas jornalísticos da emissora.

Neste 1º de abril, o "Globo Esporte" cometeu a maior ousadia de sua história. Primeiro, riu de si mesmo e do jornalismo da emissora. Leifert apareceu de terno e gravata, sentado, apresentando as notícias que ele costuma anunciar de pé, caminhando pelo estúdio, vestido de camisa pólo e tênis. Repórteres do programa, igualmente, foram a campo de terno e gravata, como fazem os profissionais do "Jornal Nacional".

Tão importante quanto, o programa teve a coragem de rir do próprio público, ensinando que uma das diversões do futebol é justamente essa: rir da desgraça alheia.

A edição foi construída inteiramente como uma piada. O apresentador chamou reportagens sobre a crise no Corinthians (de Alagoas), a boa fase do Palmeira (do Rio Grande do Norte), a dramática situação do Juventus (da Mooca) e o clássico paulista (entre São Caetano e São Bernardo). Os gols da rodada foram dedicados a partidas de futebol soçaite entre equipes como Amigos de Fred Mercury vs Galo Cego.

No encerramento do programa, Tiago Leifert disse: "O 'Globo Esporte' está terminando, mas não sem antes prestar uma merecida homenagem. Hoje é 1º de abril. Dia da Mentira, aniversário do primeiro título do Corinthians na Libertadores da América." Enquanto corriam os créditos do programa, e ouvia-se o hino corintiano, o público via uma vinheta falsa, festejando o título que a equipe nunca ganhou.

Muitos corintianos reagiram com indignação. O Twitter foi tomado por protestos e comentários irados. Até o perfil de Leifert na Wikipédia foi editado, para incluir uma informação que não tinha até então:

Tiago Leifert é considerado um bom apresentador, mas se esquece que o Globo Esporte é um programa de Jornalismo "SÉRIO", c costuma fazer graça durante o programa, SEM SER ENGRAÇADO

A indignação faz parte e é compreensível. Mas não pode esconder o fato que a edição de 1º de abril do "Globo Esporte" foi divertida e corajosa.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

Mauricio Stycer