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Blog do Mauricio Stycer

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Livro de frases explica o grito “cala boca, Galvão”

Mauricio Stycer

16/12/2010 10h20

Para o bem e para o mal, Galvão Bueno é um ícone da televisão brasileira. Conquistou o seu lugar neste Hall da Fama com a voz potente, o raciocínio rápido, a capacidade de transmitir emoção aos eventos que narra e a coragem (ou falta de vergonha) de dizer o que pensa em voz alta, diante de milhões de brasileiros.

Resulta deste mix muito peculiar de talentos um personagem complexo. Para os fãs, um narrador esportivo completo – capaz de transformar uma disputa de peteca no mais incrível dos eventos. Para quem se incomoda, um tipo cada vez mais insuportável – ufanista, egocêntrico e arrogante.

Por conta deste segundo grupo, Galvão ouviu o mais barulhento protesto em seus 35 anos de carreira. Um movimento no Twitter pedindo que, simplesmente, calasse a boca ganhou repercussão mundial, foi tema de reportagem no "New York Times" e o obrigou a sair da sombra para comentar o assunto.

Recém-lançado, "Calaboca Galvão", de Pablo Peixoto, surfa na repercussão deste "annus horribilis" do narrador. A compilação de frases, organizada em dez categorias, procura descrever os diferentes personagens que Galvão encarna diante do microfone. E, querendo ou não, ajuda a explicar o grito que tantos espectadores soltaram este ano, pedindo que se calasse.

Peixoto apresenta Galvão como "um verdadeiro super-herói global, com poderes ilimitados e múltiplas identidades". Ele é o "Superpodedoso", sem vergonha de se comparar aos esportistas que vê passar diante dos seus olhos ("Não sei o que está pior a esta altura, o motor da Ferrari do Alesi ou minha garganta"), mas também "O Capitão Óbvio", aquele que diz: "Olha, o Rubinho falou que vai acelerar na largada".

Em outro capítulo divertido, Galvão encarna "o cientista louco", capaz de dizer: "Aqui em Mônaco não dá pra ver o fim da reta porque a reta é curva!!!". Também é "O Profeta", sempre fazendo previsões que não se confirmam, assim como o "Capitão Brasil", eternizado pela gritaria "Acabou!!!! É tetra!!!! É tetra!!!". É também "o mestre da lógica" ("O Brasil errou, mas fez o certo") e "O Mago", aquele que disse: "Chutou a orelha da bola… se é que a bola tem orelha".

Em diversos momentos, me vi gargalhando sozinho, em especial no capítulo dedicado às inúmeras confusões que Galvão já protagonizou no ar com seus colegas de transmissão, em especial Arnaldo Cesar Coelho e Falcão, mas também com Casagrande, Junior e Pelé.

Pablo Peixoto é um sujeito bem-humorado e comenta as frases de Galvão com pitadas de veneno. Para quem não se lembra, Peixoto é também autor da famosa série de vídeos com paródias do filme "Um Dia de Fúria", ironizando o estilo do técnico Dunga na Copa da África do Sul, e do tumblr "Porra Mauricio", que homenageia as criaturas de Mauricio de Sousa.

"Calaboca Galvão" (Panda Books, 140 págs., R$ 39,90) traz ainda um "Galvanês", um glossário bem-humorado no qual explica alguns termos que o narrador consagrou com seu uso, como "coração na ponta da chuteira" e "fez ali a sua graça", entre outros.

"Homenagem disfarçada de sátira, ou sátira disfarçada de homenagem", segundo Peixoto, "Calaboca Galvão" provoca inúmeras gargalhadas, justamente por colocar uma lupa sobre os maiores cacoetes e defeitos do narrador. Certamente vai divertir quem gosta de Galvão. Mas quem não aguenta mais ouvi-lo vai sair da leitura de alma lavada. Como diria o próprio, "faça a sua festa, torcedor".

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.