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Blog do Mauricio Stycer

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Em “Passione”, viciado em drogas não sente prazer, apenas sofre

Mauricio Stycer

10/09/2010 11h30

Na bem urdida trama da novela "Passione", que combina drama, mistério e humor em boas doses, o calcanhar de Aquiles é a trajetória do personagem Danilo, vivido por Cauã Reymond.

Milionário, filho e neto de donos de uma metalúrgica que fabrica bicicletas, Danilo começou a novela de Silvio de Abreu como um ciclista bem-sucedido. Em pouco tempo, apelou para o uso de anabolizantes, com o objetivo de melhorar a sua performance.

A certa altura, depois de uma desilusão amorosa, o personagem começou a comprar drogas em becos sujos da cidade. Ficou transtornado. Transformou-se num zumbi. Agressivo, acabou internado pela mãe numa clínica para dependentes. Fugiu de lá e, sem ajuda de ninguém, deu a impressão de ter se recuperado do vício.

Há duas semanas, recebi um e-mail com o título "Pai revoltado". Não sei se o autor gostaria de ter o seu nome revelado, mas posso dizer que é um experiente professor, com doutorado em Química pela USP. Seleciono alguns trechos da mensagem:

Como em toda novela da Globo, existe sempre um ou mais temas escolhidos para "serviço social". Nessa novela escolheram o tema "drogas" com o ciclista Danilo. Tudo bem quanto a isso, mas não quanto a forma. Eu lhe pergunto: que droga ele está usando? Difícil de dizer, não está claro qual é a droga. Que droga é essa que o usuário toma e fica caindo pelas ruas desmaiado. Por que o autor da novela não identifica logo a droga e mostra os efeitos reais da mesma? Os efeito pós uso não se encaixam como sendo crack, cocaína ou ecstasy. Opiácios (morfina e heroína) podem até causar tal efeito, mas não são drogas tão disseminadas no Brasil e nem de perto é o problema social que o crack causa.

Minha opinião em relação ao ensinamento sobre drogas é que não podemos esconder as verdades sobre drogas dos jovens. É errado dizer que sob efeito da droga você se sente mal e fica caindo pelas ruas. Se fosse assim ninguém usava. Temos que mostrar as verdades. Temos que dizer que sob efeito da droga as pessoas se sentem bem, se sentem poderosas e por isso querem usar novamente. O mal vem após o efeito, na crise de abstinência, nos efeitos orgânicos na pessoa, nas relações sociais, etc. Uma criança não consegue entender por que o pai fuma sabendo que faz mal. A única explicação é porque fumar é bom, a sensação é gostosa, mas faz mal. A opção por não usar droga deve ser feita pelo mal que ela faz e não pela sensação que ela causa.

Imagine um adolescente desinformado que assiste essa novela. Ele olha o estado deplorável que o ator fica após usar a droga e, claro, fica horrorizado. Aqui vem o problema, se um dia o adolescente experimentar ecstasy e perceber que não ficará caindo pelos cantos como o tal Danilo da Passione, poderá achar que essa droga não é tão ruim assim, daí pode acontecer o efeito inverso do esperado. É uma pena a Rede Globo tão interessada no seu "serviço social" perder oportunidade tão grande abordando o tema de forma errada.

Enviei um e-mail a Silvio de Abreu com os questionamentos do leitor. Ele não me respondeu. Nesse meio tempo, soube que, de fato, a construção do personagem Danilo apresenta um problema grave para a equipe que faz "Passione". A lei brasileira proíbe apologia a drogas – e mostrar Danilo sentindo prazer poderia ser entendido como uma forma de fazer "propaganda".

Em breve, porém, Silvio de Abreu vai mostrar que Danilo está viciado em crack. Li isso numa destas revistas populares que antecipam informações sobre as novelas. O personagem, então, terá breves momentos de prazer antes de mergulhar no processo destrutivo que o crack provoca.

Segundo a "SuperNovelas", depois de uma briga com o pai, que o expulsará de casa, Danilo vai a uma "boca", compra uma pedra de crack e consome a droga. Diz a revista que "a primeira reação é de felicidade". A conferir.

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.