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Arquivo : senhora do destino

Por que a revelação do segredo de Tereza Cristina em ‘Fina Estampa’ causou decepção
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Mauricio Stycer

O momento da revelação

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Revelado, finalmente, depois de meses de expectativa, o segredo de Tereza Cristina (Christiane Torloni), a vilã de “Fina Estampa”, causou decepção e provocou críticas de muitos espectadores.

Depois de 140 capítulos, o público soube que Tereza Cristina não é filha e herdeira de uma tradicional família carioca, mas sim da empregada que os serviu por anos e, pior, morreu louca.

Até então, para evitar esta terrível revelação, a vilã da novela moveu mundos e fundos, sofreu chantagens variadas, encomendou o assassinato da jornalista Marcela (Suzana Pires) e tentou se livrar de todos que se aproximaram do segredo.

No Twitter, decepcionados, muitos leitores compararam a revelação ao famoso “segredo de Gerson”, alimentado por Silvio de Abreu durante meses de “Passione” (2010). Contra quem imaginava as coisas mais terríveis, o autor mostrou que personagem de Marcelo Anthony era viciado em ver cenas de sexo pela internet.

A revelação do segredo de Tereza Cristina também provocou protestos de pais de filhos adotivos. “Fico muito preocupado como eles estão interpretando o fato de, na novela, isto ser tratado como uma tragédia familiar e ainda cheia de preconceitos pela origem da família biológica da personagem”, escreveu um pai para mim.

Entendo a preocupação e também a decepção de muitos espectadores, mas creio que o pavor da personagem com a possível descoberta do seu segredo faz todo o sentido em “Fina Estampa”.

Como Aguinaldo Silva já detalhou em entrevistas, os vilões de suas novelas são inspirados em um célebre desenho animado. “O bom vilão é canastrão, faz o telespectador rir. É um pouco como o Tom do desenho animado ‘Tom & Jerry’. Ele esmaga aquele ratinho mil vezes por dia, prepara as armadilhas mais ardilosas, mas sempre leva a pior, e todo mundo morre de rir”.

Nazaré Tedesco (“Senhora do Destino”), Altiva (“A Indomada”), Perpétua (“Tieta”) e Maria Regina (“Suave Veneno”) são as vilãs que Aguinaldo Silva considera desta estirpe. “Eram todas vilãs de desenho animado”, diz no livro “Autores – Histórias da Teledramaturgia” (Editora Globo), de 2008.

Em “Fina Estampa”, não apenas Tereza Cristina, mas todos que gravitam em torno dela, são personagens infantis. O mordomo Crô (Marcelo Serrado), o motorista Balthazar (Alexandre Nero), o segurança Ferdinand (Carlos Machado), sua tia Iris (Eva Wilma), seu filho René Jr. (David Lucas) e a empregada Marilda (Katia Moraes) não são personagens que devem ser levados a sério.

Parênteses: Balthazar, no início da novela, serviu ao propósito de discutir um tema sério, a violência familiar, mas depois de enquadrado pela mulher, Celeste (Dira Paes), colocou os dois pés no núcleo cômico de Tereza Cristina.

No mundo de desenho animado em que vive Tereza Cristina, o seu segredo é coisa séria. Mas só nele.

Em tempo: Este texto foi publicado originalmente aqui, no UOL Televisão.


“Obrigada, Nazaré Tedesco”
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Mauricio Stycer

Estava no México quando Tereza Cristina, a perua louca da novela das 9 da Globo, empurrou um mafioso que a chantageava escada abaixo e  agradeceu a Nazaré Tedesco, a vilã de uma outra novela de Aguinaldo Silva, pela lição sobre como se livrar de problemas incômodos. Só vi a cena uma semana depois de ir ao ar e, a pedido do UOL Televisão, escrevi a respeito. O texto abaixo foi publicado originalmente nesta sexta-feira, na página dedicada a “Fina Estampa”.

“Senhora do Destino” se repete como farsa em “Fina Estampa”

“Como você aprendeu a agir de forma tão violenta?”, pergunta tia Íris (Eva Wilma) à sobrinha, Tereza Cristina (Christiane Torloni), uma das protagonistas de “Fina Estampa”, a novela das 9 da Globo. “Foi numa novela. Tinha uma personagem que fazia isso quase todo dia”, responde a perua, momentos depois de empurrar escada abaixo um mafioso que a chantageava.

O diálogo ocorre como um reforço didático, para deixar ainda mais explícita a referência a “Senhora do Destino” (2004), verbalizada por Tereza Cristina no instante anterior, quando cometeu o crime: “Obrigada, Nazaré Tedesco”, ela diz, ao ver o corpo do mafioso estatelado no chão.

Como devem se recordar os espectadores daquela novela, a cruel vilã interpretada por Renata Sorrah foi capaz de assassinar o próprio marido, empurrando-o da escada, depois que ele descobriu um terrível segredo sobre ela e decidiu revelá-lo a todos, inclusive à polícia. “Você não vai fazer isso comigo”, diz Nazaré antes de empurrar José Carlos.

Há três questões a se observar na cena exibida na segunda-feira (24/10). Primeiro, que o interesse em torno dela ajudou “Fina Estampa”, mais uma vez, a obter ótimos índices de audiência. Segundo, que o autor da novela, Aguinaldo Silva, é o mesmo de “Senhora do Destino”. E terceiro, que ele recriou em tom de farsa uma cena que na novela anterior teve alto teor dramático.

Silva tem sido muito hábil em promover “Fina Estampa” tanto com surpresas na trama quanto indo a público defender a novela. Ele parece ter compreendido que o papel de um novelista nos dia de hoje vai além de entregar os capítulos para gravação, incluindo o de relações públicas da própria obra.

A auto-referência não é novidade e expõe, mais uma vez, como os autores de novelas da Globo se têm em alta conta. Para citar apenas dois entre muitos casos recentes, Gilberto Braga entupiu “Insensato Coração” (2010) de menções a “Vale Tudo” (1988) e Silvio de Abreu “ressuscitou” o personagem Jamanta, vivido por Cacá Carvalho em “Torre de Babel” (1998), em “Belíssima” (2005).

O que me agrada nesta “homenagem” de Aguinaldo Silva a si mesmo é o tom de farsa que adotou, como que rindo da própria canastrice de Nazaré Tedesco e da obstinação da heroína Maria do Carmo (Susana Vieira), um espelho para a atual Griselda (Lilia Cabral).

A heroína de “Fina Estampa” é meio que disputada pelo dono do botequim, um português desajeitado, e pelo proprietário do restaurante, um chef fino. O que lembra muito o triângulo vivido por Maria do Carmo, cortejada pelo jornalista sofisticado e o bicheiro sem modos em “Senhora do Destino”.

A surra que Griselda deu em Tereza Cristina também faz lembrar da surra que Maria do Carmo aplicou em Nazaré, assim como, tudo indica, a heroína desta novela vai imitar a anterior e mandar o marido que havia sumido desaparecer mais uma vez da sua frente.

Falta de criatividade? Talvez. Excesso de vaidade? Também. Mas enquanto Aguinaldo Silva for capaz de rir se si mesmo, ele mostra uma qualidade importante, que costuma faltar aos autores de novela.


“Vilões sem causa” de “Insensato Coração” são tema de discussão na Globo
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Mauricio Stycer

Convidado pela “Folha” a explicar o sucesso de “Insensato Coração”, escrevi um texto sobre os vilões da novela, publicado na edição de 17 de julho da “Ilustrada”. Observei que três dos quatro vilões (Leo, Norma e Vinicius) apresentam traços de loucura, por agirem sem que haja justificativa para seus atos.

“Psicopatas dão impulso a sucesso da novela”
(disponível para assinantes do jornal e do UOL), era o título do texto. Descrevendo a trajetória dos três, não há nada que explique as maldades que cometem, observei. Por isso, solicitado a dar uma nota entre “péssimo” e “ótimo”, avaliei a novela como “ruim”.

No desejo de vingar Leo, Norma causou a morte, direta ou indiretamente, de quatro pessoas e, no fim, se apaixonou novamente por seu algoz. Já Leo, que alimenta um sentimento de ciúmes e inveja pelo irmão, já causou cinco mortes na novela. E Vinicius, desde que foi adotado pelo pai verdadeiro e melhorou de vida, se tornou um verdadeiro diabo.

Somente os gestos de Cortez têm lógica. O vilão é um banqueiro ganancioso e inescrupuloso. O dinheiro é a sua arma para subornar, fraudar, sonegar e, até, matar. Atropela quem ameaça a sua trajetória, o que inclui a própria mulher.

Como mostrei aqui no blog, há uma semana, os quatro vilões, incluindo Cortez, foram responsáveis por uma verdadeira carnificina na novela.

Conclui meu texto na “Ilustrada” assim: Em ritmo vertiginoso, desde que Norma saiu da prisão, a novela acelerou. Sem compromisso com a realidade, mas ajudado por personagens igualmente distantes dela, o folhetim ficou eletrizante. E a audiência subiu.

Em entrevista a “O Globo”, no dia 31 de julho, Aguinaldo Silva, autor da próxima novela da Globo, “Fina Estampa”, fez uma avaliação semelhante. “Quero falar do cotidiano das pessoas, de gente que estuda, trabalha. Gente comum com problemas típicos do folhetim”, disse.

“Quanto mais os personagens forem reconhecíveis, melhor. A novela das 21h anda muito próxima da perversão. As histórias são muito tortuosas, é um mudo irreal e afastado. As novelas estão criando personagens tão extremos que as pessoas não se identificam”, completou.

Os autores de “Insensato Coração”, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, ignoraram, ao menos publicamente, a crítica de Aguinaldo. Mas, uma semana depois, Patrícia Kogut, colunista do “Globo”, saiu em defesa da novela das 9.

Ela primeiro observou que o próprio novelista criou uma vilá “perversa”, a Nazaré, em “Senhora do Destino”. Em seguida, falou do “apreço” dos espectadores pelos vilões. E concluiu dizendo que “no caso de ‘Insensato Coração’, os melhores índices (de audiência) coincidiram com capítulos que tinham mortes, como as de Araci, Carmem e Clarice”.

Aguinaldo respondeu a Patricia no Twitter. Na sua visão, Nazaré tinha motivos para agir como agiu: “Vou dizer a vocês o que torna o vilão um pervertido: é quando ele pratica todo tipo de maldades sem ter uma causa que as justifique. Pois, assim como os heróis da novela, os bons vilões têm uma causa que precisam levar a bom termo”.

Concordo com Aguinaldo. Só não usaria o termo “pervertido” pois tem uma conotação moral. Prefiro chamar esses “vilões sem causa” de “psicopatas”.

Em tempo: O destino final dos principais vilões de “Insensato Coração” é tema de uma reportagem nesta quinta-feira no UOL Televisão.


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