Blog do Mauricio Stycer

Categoria : Cinema

Dois grandes atores em cena
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Mauricio Stycer

Aproveito que hoje é sábado para recomendar um filme, “À Procura do Amor”, com dois grandes atores, Julia Louis-Dreyfus e James Gandolfini, ambos marcados por trabalhos feitos para a TV – ela, em “Seinfeld”, “The New Adventures of Old Christine” e “Veep”; ele, em “Família Soprano”.

Comédia romântica com momentos amargos, “À Procura do Amor” mostra as idas e vindas de um romance entre dois cinqüentões, ambas separados. É um dos últimos trabalhos de Gandolfini (1961-2013), que morreu em junho deste ano, em Roma. Tinha 51 anos.

A convite da “Folha” escrevi o texto Interação entre dois grandes atores de TV fortalece ‘À Procura do Amor’, publicado na edição de terça-feira (03) do jornal.

Abaixo o trailer do filme:

 


Cultura escolhe exibir ótima série sobre “rebeldes do futebol” na mesma hora do jogo
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Mauricio Stycer

A TV Cultura exibe neste domingo o primeiro dos cinco episódios de “Os Rebeldes do Futebol”. Trabalho dos franceses Gilles Rof e Gilles Perez, a série apresenta cinco pequenos documentários sobre craques que também deixaram uma marca por conta de notáveis atuações no campo político. A série é uma versão do filme, com o mesmo título, exibido  no início de junho no 4º CineFoot, em São Paulo.

O primeiro perfil a ser exibido é o de Sócrates (1954-2011), principal nome da Democracia Corintiana, um movimento político que afrontou não apenas o ambiente do futebol, mas também o da política no início dos anos 80, quando o país ainda vivia sob uma ditadura.

“Não foi o melhor, mas o mais original jogador da história do Corinthians”, diz Juca Kfouri, deixando o outro posto para Rivellino. A série é apresentada por outro rebelde, o francês Eric Cantona, que diz sobre a experiência vivida no Corinthians: “O futebol como laboratório de como a vida deveria ser… Lindo! Mas numa ditadura?”

O segundo episódio (dia 7 de julho) é dedicado a Didier Drogba, ex-jogador do Chelsea, e conta como ele conseguiu um cessar fogo durante a guerra civil na Costa do Marfim. O chileno Carlos Caszely (dia 14), que ousou afrontar a ditadura Pinochet, protagoniza o terceiro episódio. O quarto programa (dia 21) narra a história de Rached Mekhloufi, símbolo da luta pela independência da Argélia. E o bósnio Pedrag Pasic é tema do último episódio (28 de julho), que fala do seu trabalho social em Sarajevo.

A TV Cultura escolheu mostrar a série sempre as 17h de domingo, concorrendo diretamente com a exibição de partidas de futebol na Globo e na Band. Não deixa de ser um gesto de rebelião, que talvez agradasse aos craques homenageados na série. Na estreia da série,excepcionalmente, não haverá essa competição já que a final da Copa das Confederações será às 19h.


“Gonzaga” esclarece quem é a Dina da canção de Gonzaguinha
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Mauricio Stycer

A certa altura de “Gonzaga – De Pai para Filho”, quando toca a música “Com a Perna no Mundo”, de Gonzaguinha, fui capaz de compreender melhor uma música que sempre achei linda. Duas estrofes em especial ficaram mais claras:

O Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar

Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu

Órfão de mãe, que morreu de tuberculose aos 22 anos, e com o pai ausente, Gonzaguinha foi criado no morro de São Carlos por um músico, Enrique Xavier, e sua mulher, Dina, amigos de Luiz Gonzaga. Viveu com eles parte da infância e da adolescência. Até o dia em que, já na faculdade, pega o violão, desce o São Carlos e vai morar com o pai.

Sabe-se pouco sobre este casal. Nesta esclarecedora reportagem de Natalia Engler, do UOL, a atriz Silvia Buarque conta que construiu a personagem a partir de alguns poucos fragmentos, entre os quais, justamente, a canção “Com a Perna no Mundo” (no alto, a atriz em cena com o ator que vive Gonzaguinha quando criança).

Clicando aqui você pode ouvir uma versão da música, cantada por Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha.

A história de Dina é apenas um detalhe em “Gonzaga – De Pai para Filho”, mas me chamou atenção especial. Gostei do filme de Breno Silveira, de um modo geral, apesar de alguns momentos piegas. A produção e a direção de arte impressionam. E a história entre pai e filho é, de fato, muito forte e comovente.


Sonho de participar do “Big Brother” é tema de ótimo filme na Mostra
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Mauricio Stycer

Em exibição na 36ª Mostra de São Paulo, o premiado “Reality”, de Matteo Garrone, leva o espectador a acompanhar a trajetória do napolitano Luciano, meio peixeiro, meio trambiqueiro, que sonha com a possibilidade de ser escolhido para participar de uma edição do “Grande Fratello”, o “Big Brother” da TV italiana.

Numa cena do filme, centenas de pessoas fazem fila em um shopping com o objetivo de se inscrever no programa. Diante de uma câmera, precisam dizer por que querem participar. As explicações se sucedem até que um candidato diz: “Porque quero ficar famoso e rico”. O responsável pela seleção diz, ao fundo: “Finalmente alguém fala a verdade”.

Diretor também do forte “Gomorra”, Garrone abre “Reality” em chave cômica, mostrando Enzo, um ex-participante do programa, fazendo “presença vip” num casamento. Sem ter o que dizer a quem sonha com a mesma fama que ele alcançou, Enzo apenas repete um bordão, em inglês: “Never give up” (nunca desista).

Ainda que a intenção do diretor tenha sido a de fazer um filme mais leve do que “Gomorra”, “Reality” vai adquirindo um tom amargo à medida em que Luciano, chamado para uma segunda entrevista, passa a acreditar que será selecionado para entrar na casa mais vigiada da Itália.

É impossível não fazer um paralelo com o Brasil vendo o filme de Garrone. Em menos de um mês, em abril de 2012, segundo o diretor Boninho, 125 mil pessoas se inscreveram para participar do “BBB13”, que ocorre em janeiro do ano que vem. Menos de 20 serão escolhidos.

Surpreende pensar que o cinema brasileiro ainda não tenha sido capaz de produzir nada parecido com “Reality” – nem em ficção, nem em forma de documentário. O filme ainda tem duas sessões na Mostra, nesta quarta (24), às 21h40, no Cine Sabesp, e na quinta (25), às 21h30, no Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca.

Em tempo: Como lembra Diego Assis, no texto Obsessão por reality show vira doença em comédia sombria do diretor de “Gomorra”, Aniello Arena, o ator que vive Luciano em “Reality”, é na vida real um ex-pistoleiro da máfia napolitana, que cumpre prisão perpétua por uma chacina contra uma gangue rival da qual participou em 1991. Para mais informações sobre a Mostra, veja aqui.


Deputado não entendeu “Ted”
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Mauricio Stycer

Quero aqui agradecer ao deputado Protógenes Queiroz (PC do B-SP) por me fazer sair de casa, na noite de segunda-feira, bem na hora da novela, para ver “Ted”, a comédia de Seth MacFarlane.

Eu havia decidido não ver o filme. As críticas negativas que li a respeito haviam me desanimado a ir ao cinema. A. O. Scott, do “New York Times”, disse que “Ted” era um filme de uma piada só. Meu amigo Andre Barcinski escreveu na “Folha” que a diversão dura não mais do que 15 minutos.

Depois que o deputado se manifestou sobre o filme, anunciando a sua intenção de varrê-lo dos cinemas brasileiros, achei que precisava vê-lo. E fico muito feliz pela decisão. Não achei o filme tão fraco quanto os críticos escreveram.

Como todo mundo já deve saber a esta altura, “Ted” conta a história da relação de um homem de 35 anos, John (Mark Wahlberg), e seu urso de pelúcia, que anda, fala (a voz é do diretor) e age como uma pessoa.

John e Ted passam horas diante da televisão, fumando maconha, bebendo cerveja e fazendo piadas bobas. São dois idiotas completos. John trabalha numa locadora de veículos de dia, enquanto Ted faz festinhas caseiras com prostitutas.

A diferença essencial entre John e Ted é que o primeiro tem uma namorada, Lori (Mila Kunis), inteligente e bem-sucedida profissionalmente. Cabe a ela o papel de arrancar o amado do mundo infantil em que vive, o que inclui livrá-lo da “má influência” do urso de pelúcia.

Não vou avançar além deste ponto para não tirar o prazer de quem ainda pretende ver “Ted”. Apenas adianto que o deputado Protógenes claramente não entendeu o que viu ao escrever: “Fiquei chocado e indignado com esse filme. Ele passa a mensagem de que quem consome drogas, não trabalha e não estuda é feliz”.

É exatamente o contrário. MacFarlane ri – e ri muito – durante os 106 minutos do filme de pessoas como John. É curioso que o filme tenha feito tanto sucesso nos Estados Unidos, já que tira onda, basicamente, do jovem americano, ou seja, de quem ainda vai a cinema no país.

Em tempo: Para entender o caso Protógenes Queiroz x “Ted”, leia aqui.  Para mais informações sobre o filme, incluindo uma crítica, fotos, ficha técnica e trailer, clique aqui.


Um olhar delicado sobre o agitado ano de 1971
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Mauricio Stycer

Aproveito o sábado para uma dica de cinema: “Cara ou Coroa”, de Ugo Giorgetti. O filme se passa em 1971 e conta, de um jeito muito carinhoso, histórias de pessoas comuns, afetadas pelo clima de repressão política, efervescência cultural e revolução de costumes que o Brasil vivia naquele momento.

Como em todos os filmes de Giorgetti (“Boleiros”, “Sábado”, “Festa”, “O Príncipe”), o cenário é São Paulo. Outra marca do cineasta, admirável, é o elenco escolhido a dedo, nem sempre entre os rostos conhecidos da televisão, mas inevitavelmente perfeitos para os papéis.

O de “Cara ou Coroa” inclui Octavio Augusto como um taxista conservador, Emilio de Mello como diretor de teatro, Julia Ianina e José Geraldo Rodrigues vivendo um casal de estudantes apaixonados (na foto do alto), além de Walmor Chagas no papel de um general aposentado.

Não custa repetir que “Cara ou Coroa” não é um filme violento, não mostra cenas de tortura ou repete clichês sobre a ditadura militar. Procura contar histórias de pequenos gestos, de gente que viveu e tentou entender aqueles dias. “São momentos tão incompreensíveis que parecem inventados”, diz um personagem.

Fiz uma entrevista com Giorgetti, publicada esta semana no UOL. Ele explica muito bem o filme, a sua intenção e o seu olhar sobre aquele período. O cineasta também fala do mercado distribuidor, incapaz de encontrar espaço adequado para filmes adultos, como o dele. É um desabafo forte, que merece, na minha opinião, a sua atenção.

Veja aqui: O público inteligente que resta não quer mais saber de cinema”, diz cineasta Ugo Giorgetti.

Uma crítica ao filme pode ser lida aqui. Fotos de cenas podem ser vistas neste álbum. E abaixo, o trailer:


Caio Blat fala mal da Globo, se arrepende, pede desculpas e manda tirar do ar vídeo com críticas
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Mauricio Stycer

O ator Caio Blat nunca mais vai se esquecer do domingo, 6 de maio, em que foi a Suzano, município de cerca de 250 mil habitantes na região metropolitana de São Paulo, falar sobre a sua trajetória profissional a um grupo de jovens. Marcado pela informalidade, o encontro esquentou quando Blat, sem alterar muito a voz, disse:

“Nos últimos sete ou oito filmes que fiz, entrei também como produtor. Aí descobri como a coisa está sendo feita na distribuição. E é uma coisa que me deixou enojado, horrorizado. Eu ia sempre na Globo pra divulgar os filmes que estava fazendo. Ia no “Vídeo Show”, no programa do Serginho Groisman para falar do filme, mostrar o trailer e tal. E achava que isso era um trabalho natural de divulgação. Aí eu descobri que essas coisas são pagas. Que quando vou no programa do Jô Soares fazer uma entrevista em que ele mostra um trecho do filme isso é considerado uma ação de merchandising, e não jornalismo. A TV Globo faz uma ação de merchandising do filme e apresenta um custo, uma fatura, pra Globo Filmes pagar. Ela cobra dela mesmo.”

Algumas poucas dezenas de pessoas participaram do encontro, realizado Teatro Municipal Dr. Armando de Ré, promovido pela prefeitura local. A acusação de que  entrevistas no programa do Jô são atividades pagas pela Globo Filmes não teve repercussão nenhuma até que, mais de dois meses depois, no dia 17 de julho, o vídeo com a palestra de Blat foi publicado no You Tube pela Secretaria de Comunicação de Suzano.

O vídeo começou a ser visto, notas foram publicadas em blogs, o assunto chegou às redes sociais e a repercussão, naturalmente, acabou alcançando o próprio Blat. Surpreso com o impacto das próprias declarações, o ator tomou duas atitudes. Primeiro, na segunda-feira, 30, enviou uma longa carta à Globo, desculpando-se pelas declarações:

“Acabei avançando sobre temas dos quais não tinha conhecimento suficiente, misturei questões pertinentes e importantes com outras tantas generalizações, e acabei atingindo quem estava mais perto, ou seja, a Globo Filmes, parceira prioritária do cinema nacional, de forma injusta”.

Em segundo lugar, procurou a Prefeitura de Suzano para pedir a retirada do vídeo de circulação. Na carta que enviou à Globo, ele escreveu:

“A Secretária de Comunicação da Cidade de Suzano se recusou a fazê-lo de forma amigável, alegando que a repercussão de vídeo estava sendo boa para a Cidade. Pedi então, que meus advogados fizessem uma interpelação judicial e tomassem as medidas cabíveis para preservar minha imagem e das empresas onde trabalho.”

Um dia depois, nesta terça-feira (31), Suzano se rendeu. Por orientação jurídica, o vídeo foi retirado do ar. Procurada pelo UOL, a prefeitura informou:

“A Secretaria Municipal de Comunicação Social (Secom) filmou a palestra do ator Caio Blat e a divulgou em seu canal institucional no Youtube, como faz com todas as atividades públicas promovidas pela Prefeitura. Em nenhum momento houve exploração comercial da imagem do ator e, por solicitação dele, o vídeo foi retirado do ar. Vale salientar que não houve distorção ou qualquer montagem nas declarações do ator”.

Na carta enviada à Globo, Blat se diz arrependido e pede desculpas à emissora:

“Resta então uma atitude minha em relação a vocês, para expressar meu arrependimento por ter levado esse assunto ao público, quando, devido ao longo relacionamento que temos e a longa lista de grandes trabalhos realizados em parceria, devia tê-los procurado pessoalmente para discutir quaisquer dúvidas que eu tivesse ou mesmo levar minhas críticas, quando pertinentes. Deixo aqui meu pedido pessoal de desculpas, e reafirmo meu compromisso com os projetos que temos em parceria para futuros lançamentos e meu reconhecimento pelo trabalho generoso da Globo Filmes na promoção do cinema brasileiro.”

Questionada pelo UOL sobre o teor das declarações iniciais de Blat, em Suzano, a Central Globo de Comunicação se limitou a enviar uma cópia da carta que, segundo informou, o ator tomou a iniciativa de mandar para a emissora.

Este texto foi publicado originalmente aqui, no UOL Entretenimento.


“Os Vingadores” sabe rir do ridículo de seus heróis e ainda tem Scarlett Johansson
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Mauricio Stycer

Você não é muito fã, mas está se sentindo na obrigação de ver “Os Vingadores”? Tenho duas boas notícias. Primeiro,  a reunião dos heróis da Marvel resultou num filme muito bem-humorado. Segundo, tem Scarlett Johansson, ruiva, com papel importante na história.

Destinado, logicamente, a quem gosta das aventuras de Tony Stark/Homem de Ferro, Bruce Banner/Hulk, Steve Rogers/Capitão América e Thor, “Os Vingadores” tem potencial para agradar quem não leva muito a sério nenhum deles.

São inúmeras as piadas que um super-herói faz com o outro, enfatizando aspectos ridículos ou bobos dos personagens. O roteiro não perdoa a personalidade egocêntrica de Stark, o uniforme démodé e o jeito lesado do Capitão América, o “gênio explosivo” de Banner e a família de Thor, cujo irmão, Loki, arquivilão da história, é “adotado”.

O humor em “Os Vingadores” me pareceu na dose certa. Não transforma o filme numa paródia, o que irritaria os fãs, mas abre uma porta ao espectador que não abraça a causa de nenhum deles e quer apenas diversão.

Dos atores, apenas Mark Ruffalo, como Banner/Hulk, é novidade. Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth já viveram seus papéis nos longas da Marvel destinados ao Homem de Ferro, Capitão América e Thor.

Num filme quase totalmente masculino, a ruiva Scarlett Johansson é a magnética presença feminina. Ela  tem também a companhia da morena Cobie Smulders e da loiríssima Gwyneth Paltrow, mas rouba totalmente a atenção com a sua Natasha Romanoff/Viúva Negra, personagem que já havia aparecido em “O Homem de Ferro 2”, mas que agora, em “os Vingadores”, tem papel central.

Por último, antes que comecem os xingamentos, um aviso: este texto não é uma crítica de “Os Vingadores”, mas apenas uma tentativa de situar o filme para aqueles que não são especialistas em super-heróis da Marvel.

Você pode ler diferentes críticas, além de entrevistas com atores, ver fotos, trailer e ficha técnica de “Os Vingadores” no ótimo site especial do UOL Cinema sobre o filme.


Ufanismo patético esconde dificuldades do cinema brasileiro no Oscar
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Mauricio Stycer

Com todo respeito a Sergio Mendes, Carlinhos Brown e Carlos Saldanha (foto acima), foi patético ver tanta gente torcer apaixonadamente por um Oscar para “Real in Rio”, uma canção repleta de clichês, cantada em inglês, tema de um filme tão brasileiro quanto “Uma Noite no Rio”, com Carmen Miranda.

Assim como a medalha de ouro que o futebol nunca conquistou em Jogos Olímpicos, o Oscar se tornou objeto de uma veneração quase divina e irracional.

Se o Oscar é importante para a indústria cinematográfica brasileira, seria o caso dela discutir o assunto seriamente. Se não é, deveríamos tratar desta festa com mais humor. A seriedade e, pior, o ufanismo nas últimas semanas por causa de “Real in Rio” beirou o ridículo.

A última produção brasileira indicada ao Oscar de filme estrangeiro foi “Central do Brasil”, em 1999 – há 13 anos. Em 2004, “Cidade de Deus” conseguiu quatro indicações (direção, roteiro, fotografia e edição), por méritos, além das suas qualidades, de seus distribuidores americanos. E em 2011, “Lixo Extraordinário” concorreu como melhor documentário.

Definir critérios, por exemplo, para a escolha dos filmes a indicar, seria um primeiro passo para quem vê importância na estatueta. Métricas diferentes têm sido usadas a cada ano, ao sabor das comissões montadas para escolher o filme. O maior sucesso do ano anterior ou a produção mais ousada? Um filme para agradar os americanos ou aquele que tem a cara do cinema brasileiro? Aliás, qual é a cara do cinema brasileiro?

Essa é uma discussão longa e difícil, que muita gente séria está tentando levar adiante. O problema, porém, foi esquecido, por alguns instantes, quando “Real in Rio” virou “o Brasil no Oscar”. Agora que a miragem se desfez é hora de voltar a pensar no assunto.

Leia mais: Não foi dessa vez, mas valeu muito, diz Carlinhos Brown. E o site do UOL Cinema sobre o Oscar está aqui.

Foto: Reuters


Flertando com o sensacionalismo em nome da audiência: o caso Eloá e o cinema
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Mauricio Stycer

O caso Eloá tem todas as características para render um bom filme de ação. Nele, obrigatoriamente, uma jornalista terá papel importante. Sonia Abrão entrevistou Lindemberg Alves por mais de 20 minutos durante o longo período em que ele manteve a ex-namorada sob cativeiro.

A lista de filmes com jornalistas em papéis principais, como herói ou vilão, preencheria várias páginas.  Em defesa de seu papel no caso, Sonia recorreu a um deles, “Quarto Poder”, em especial a uma cena, na qual Larry King, que por anos manteve um talk show na CNN, entrevista um criminoso e ajuda a expor o seu perturbado perfil.

Costa Gavras mostra em “Quarto Poder” (1997) como um jornalista decadente (Dustin Hoffman) manipula, em proveito próprio, um ex-segurança desempregado (John Travolta), que mantém a ex-chefe em cativeiro.

A participação de Larry King funciona como um breve contraponto, a dizer que há uma ou outra exceção entre os abutres em busca de carne fresca para fazer sensacionalismo.

Trabalho menor do cineasta grego, é um dos muitos filmes que apresentam uma péssima imagem dos jornalistas de televisão. Cito outros dois, bem melhores, que mostram profissionais de mídia flertando com o sensacionalismo em nome da audiência.

Dez anos antes de Gavras, em 1987, James L. Brooks descreveu em “Nos Bastidores da Notícia” os conflitos dentro da redação de um telejornal, num momento em que aparência e entretenimento começavam a preocupar mais do que a informação propriamente.

O filme foi indicado a sete Oscars, mas não levou nenhum. O conflito se dá entre um jornalista sério (Albert Brooks) e um âncora  (William Hurt, foto acima) mais preocupado com o seu terno do que com a notícias que deveria ler. Numa das cenas mais fortes, há uma manipulação de imagens de maneira a sugerir que o âncora chorou durante uma entrevista.

A mesma questão foi tema, dez anos antes, de “Rede de Intrigas”, de Sidney Lumet. O filme ganhou quatro Oscars em 1977 com a história do âncora de um telejornal que, ao vivo, ameaça se matar logo depois de saber que será demitido por causa da baixa audiência do programa que apresenta. A cena faz o Ibope do noticiário disparar, levando os executivos da emissora a mudar de ideia quanto à demissão.

Peter Finch (foto) ganhou o Oscar pelo papel, mas foi premiado postumamente pois morreu um mês antes da cerimônia.