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Confesso que fui otimista demais com “Em Família”

Mauricio Stycer

18/07/2014 05h01

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Relendo os muitos textos que escrevi sobre "Em Família", me dou conta que o prólogo da novela me levou a ter uma visão positiva, talvez otimista demais, em relação ao que o folhetim prometia.

Manoel Carlos planejou uma longa abertura, em dois tempos. Primeiro, focada na infância dos três protagonistas – Helena, Laerte e Virgílio. Depois, na juventude deles. Sem preocupação com o ritmo, o autor pensou em apresentar quase todos os principais personagens e os conflitos mais sérios neste prólogo.

Assustada com a baixa audiência deste início, a Globo determinou uma redução no tempo dedicado à introdução, mutilando-a. Em vez dos dez capítulos previstos, a introdução terminou no sétimo.

emfamiliahelenalaertejovensOlhando agora, tudo indica que o público não reagiu de forma negativa ao formato escolhido para introduzir a história, mas à trama propriamente. Para piorar, assim que "Em Família" entrou na fase contemporânea, houve um segundo e ainda mais barulhento movimento de rejeição – desta vez à escalação do elenco.

Ana Beatriz Nogueira como mãe de Gabriel Braga Nunes; Julia Lemmertz como sobrinha de Vanessa Gerbelli e filha de Natalia do Valle… Pouca gente "comprou" essa liberdade que só a ficção permite.

Num sinal de excesso de confiança, ou de que não estava com os sentidos afiados, Manoel Carlos deu de ombros para esta reclamação generalizada, dizendo que com o passar do tempo o público iria se acostumar com o elenco. O que nunca aconteceu.

Temas apresentados na introdução foram mal desenvolvidos na "fase adulta" da novela. O ciúme doentio de Laerte desapareceu (ou hibernou) por uma centena de capítulos, só reaparecendo na reta final. A ambiguidade da primeira Helena, apaixonada por Laerte, mas sempre seduzindo Virgílio, deu lugar a uma personagem inexpressiva na fase adulta.

Luiza (Bruna Marquezine) herdou o espírito da Helena jovem (vivida pela mesma atriz), enquanto a Helena adulta (Lemmertz) se transformou numa figura de uma cor só, pálida, chata e reclamona. O público também não digeriu essa mudança.

emfamiliajuliananandoA complexidade da relação entre as irmãs Chica e Selma foi igualmente esquecida. O problema com bebida do jovem Felipe evoluiu para o alcoolismo do médico, mas o autor não conseguiu evitar que o público ficasse com a impressão de que se tratava de "mais um personagem bêbado" em novela.

Shirley, a criança malvada e invejosa do prólogo, não evoluiu como se espera de uma vilã. Aliás, nem ela nem Laerte, que também poderia ter sido um bom catalisador para a raiva do público – elemento essencial num folhetim.

Algumas boas tramas foram desenvolvidas. A melhor, na minha opinião, foi a obsessão de Juliana (Vanessa Gerbelli, acima) em ter filhos.A personagem cresceu e Manoel Carlos soube criar uma história intrincada ao redor dela.

emfamiliacasamentoclaramarinaOutro bom tema, a da descoberta tardia da sexualidade da pacata dona de casa Clara (Giovana Antonelli), mereceu um tratamento acanhado, possivelmente por medo de provocar ainda mais rejeição do público.

A questão dos maus tratos aos idosos de uma casa de repouso oscilou entre o tom de denúncia e o de comédia, nenhum dos dois causando impacto. Da mesma forma, a busca de Alice (Erika Januza) pelo estuprador da mãe e a de Andre (Bruno Gissoni) por seus pais verdadeiros não conseguiram empolgar, talvez por serem muito batidos.

emfamilialuizalaerte3Contra todas as recomendações de bom senso, Luiza (Bruna Marquezine) se apaixonou por Laerte (Gabriel Braga Nunes), o homem que foi o amor de juventude de sua mãe e tentou assassinar seu pai. Situação absurda, mas aceitável num folhetim, foi mais uma a provocar rejeição do público sem reverter em boa audiência para a novela.

Manoel Carlos defendeu até o fim a ideia de que "Em Família" foi, como todas as suas novelas, uma história baseada em diálogos de qualidade. Não enxergou, porém, que desta vez faltaram boas histórias e uma direção mais intensa. Sobraram conversas longas e cansativas.

Pecado mortal, "Em Família" não repercutiu, não provocou polêmica (com exceção do "beijo lésbico") e, muitas vezes, deu sono.

Alguns textos que escrevi sobre a novela
1. Ótimo prólogo de "Em Família" podia ter sido uma minissérie
2. Navegando em águas calmas demais, "Em Família" ainda não pegou no Twitter
3. Sem barraco, mas com "flashback" e beijo, "Em Família" sai do marasmo
4. Irritação do público com Luiza é ponto a favor de "Em Família"
5. Usado para promover "Em Família", beijo entre mulheres não significou nada

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.