Blog do Mauricio Stycer

Livro do “Tá no Ar” revela bastidores e como nasceram os maiores sucessos

Mauricio Stycer

07/03/2017 04h01


Nascido com a ambição de “buscar novos caminhos para a comédia”, rir de assuntos que não estavam na pauta de outros humorísticos e dialogar com um público jovem que não liga mais a TV, o “Tá no Ar” pode ser considerado um dos maiores acertos da Globo nestes últimos anos.

Não por acaso, o programa criado por Marcius Melhem, Mauricio Farias e Marcelo Adnet ganha esta semana um livro dedicado a celebrar os seus feitos, “Tá no ar, no livro” (editora Leya, 192 págs., R$ 44,90).

Com quase tantas fotos quanto textos, reproduções de trechos de roteiros e recurso (QR code) para acessar inúmeros vídeos do humorístico, o livro busca reproduzir a experiência que os fãs já têm na televisão. Escrito por Alexandre Pimenta, um dos redatores do “Tá no Ar”, a obra revela bastidores, mostra como nasceram alguns de seus maiores sucessos e conta quais são os princípios e valores do programa.

“Tá no ar, no livro” rememora a gênese do humorístico – um fórum criado dentro da Globo em 2013, destinado a discutir novos programas. Como Melhem já contou em entrevistas, neste encontro foi levantada a barreira que proibia ou limitava a crítica política, a paródia com marcas comerciais e as citações a concorrentes da emissora – impedimentos que atrapalharam o “Casseta & Planeta” em seus últimos anos.

Definido o tema, o universo da televisão, passou-se ao formato: a TV dentro da TV. Escreve Pimenta: “Uma programação em que o telespectador perde o poder de mudar de canal. O zapear é controlado por outra ‘pessoa’, navegando aleatoriamente pela variedade de atrações disponíveis. O ritmo acelerado simula a nossa frenética relação com o controle remoto, na incansável busca pelo ‘programa perfeito’. Os esquetes são fragmentos de canais que constroem um mosaico da televisão e da nossa sociedade. Uma metalinguagem de possibilidades infinitas”.

O livro descreve em detalhes o processo de criação coletiva desenvolvido pela equipe de roteiristas (imagem ao lado). “A observação do cotidiano também alimenta a criatividade. De uma simples ida ao supermercado, por exemplo, podem nascer comerciais com marcas e produtos. Na observação de um comportamento nas redes sociais, como a revolta com pessoas que dão spoilers de um seriado, surge uma paródia sobre o assunto”.

A escolha de um elenco formado por atores não muito famosos foi pensada. “O desejo era dar ao telespectador a sensação de que ele não estava assistindo apenas à Globo, e sim a vários canais diferentes. Por isso, a proposta era escalar rostos menos conhecidos do grande público”.

Essa preocupação afeta, também, a forma de realizar os quadros: “Enquadramentos, ritmo, narrativa, o tom de interpretação e todas as outras áreas como fotografia e cenografia deveriam emular o mundo real, dando a sensação de passear por diferentes canais. Essa programação fictícia teria que ser ruim quando necessária, com interferências e imagens de baixa qualidade”.

Ainda que nem sempre seja respeitado, como no caso do “Te Prendi na TV” (baseado em João Kleber), um outro cuidado importante da equipe é evitar associações muito diretas com programas ou apresentadores: “O ‘Tá no Ar’ costuma parodiar gêneros televisivos, e não uma atração específica, ampliando a compreensão do público e a abordagem das críticas”.

Outro alerta diz respeito às piadas com religião: “A religiosidade é tanto um terreno fértil quanto minado. No ‘Tá no Ar’, o alvo da crítica é a exploração da fé, e não uma religião ou crença. É da natureza da comédia perseguir os temas espinhosos. No humor não existe o intocável”.

O livro revela que alguns dos maiores sucessos do programa, como o “Jardim Urgente” e a “Galinha Pintadinha”, seriam originalmente esquetes únicos. “Melhem estava no set acompanhando os trabalhos da equipe. Vendo a brilhante interpretação de Welder Rodrigues, telefonou para a redação e encomendou outros cinco episódios”, conta Pimenta sobre a paródia de programa policial.

Já a “Galinha”, depois de viralizar com apenas um episódio, ganhou mais dois ainda na primeira temporada. E anos seguintes passou a cantar música das mais variadas religiões.

Surpreende saber, segundo o livro, que marcas parodiadas pelo programa têm apreciado as piadas. “Algumas marcas capitalizam as paródias e monitoram nas redes sociais a repercussão gerada pelo assunto. Os resultados confirmam que as brincadeiras têm sido positivas para as empresas, provando que o humor é mesmo um bom negócio”.

Em tom de “você sabia?”, o livro informa: “Em quatro temporadas, o “Tá no Ar” trocou de canal mais de mil vezes — exibindo cerca de 230 programas, 180 comerciais, 200 produtos e marcas, 80 participações especiais, 40 musicais de encerramento, 90 cartelas de classificação indicativa, 30 canções da Galinha Preta Pintadinha e 40 canais de áudio”.

Por fim, um alerta. Não compre o livro se você espera ouvir piadas novas. Quase não há. Uma das poucas eu vou entregar aqui no texto. Trata-se da apresentação, escrita pelo Militante, sempre revoltado com a Globo. Ele comenta o fato de a obra ter sido publicada pela editora Leya e não pelo grupo Globo:

“Lembrando que esta famigerada editora publicou no Brasil ‘As Crônicas do Gelo e do Fogo’ que inspiraram a série ‘Games of Thrones’. É essa a mensagem que queres passar? Que o reinado dos Marinho vai perdurar por todo o sempre? Que o inverno na cultura brasileira está chegando? Nem a Editora Globo quis publicar esta troça pseudoliterária”.

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Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).
Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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