Blog do Mauricio Stycer

“O Rio civiliza-se”

Mauricio Stycer

Abaixo, uma primeira avaliação que fiz da nova novela das 18h, da Globo,  publicada originalmente no UOL Televisão.

“Lado a Lado'' tem bom tema, ótima vilã, mas ritmo suave demais

Tradição no horário das 18h, a “novela de época” está de volta à grade da Globo, agora com uma história ambientada num período muito rico e inspirador, a chamada “Belle Époque Tropical”.

“Lado a Lado” se passa no Rio, nos primeiros anos do século 20. O desafio inicial parece ser o de introduzir não apenas os personagens da trama, mas o quadro de transformações políticas, econômicas e culturais do período.

Sem recorrer a um didatismo primário, a novela está conseguindo apresentar este interessante painel, cujo pano de fundo principal é a adaptação da elite aos novos rearranjos promovidos pela República e pelo fim da escravidão.

Igualmente, “Lado a Lado” está sendo hábil ao incorporar ao enredo a importante reforma urbana, o chamado “bota abaixo”, promovida pelo prefeito Pereira Passos, que buscou alargar avenidas, reduzir as doenças tropicais e deu início à favelização da cidade.

Falta, ainda, rir um pouco mais claramente da macaqueação dos hábitos e costumes estrangeiros. Como se sabe, o lema do período era “O Rio civiliza-se”. Tudo que vem da Europa é bom. Os cariocas usam roupas totalmente inapropriadas para o clima tropical porque é assim que os europeus se vestem. A cultura que interessa é a francesa. O futebol chega da Inglaterra. E assim por diante.

Como em outras produções do gênero, há uma nítida preocupação em “Lado a Lado” de retratar não apenas a realidade da elite, mas também a das classes mais humildes e subalternas.

Mais que isso, o bom texto dos estreantes João Ximenes Braga e Claudia Lage tem buscado, desde o início, promover o encontro – e o choque – destes dois mundos.

Na melhor cena da novela até agora, Isabel (Camila Pitanga), filha de escravos, e Laura (Marjorie Estiano), a filha de ex-aristrocatas, se encontraram na igreja no dia do casamento de ambas. A primeira esperava o noivo, Zé Maria (Lazaro Ramos), sem saber que ele estava preso e a segunda ignorava que o seu, Edgar (Thiago Fragoso), não queria mais se casar.

Por conta, imagino, das dificuldades de transportar o espectador a um lugar que ele conhece mal, o desta Belle Époque Tropical, “Lado a Lado” adotou um ritmo suave, para não dizer lento, que pode estar assustando quem se acostumou ao início eletrizante de outras tramas recentes da Globo.

Passados oito capítulos, a novela ainda não “pegou”. Não vejo isso como defeito, mas acho que pode estar incomodando a quem monitora os índices de audiência.

Como muitos críticos já observaram, além do bom texto, da inspiradora trilha sonora, a produção de “Lado a Lado” é de excelente qualidade. O mesmo eu não diria da direção, que exibe mão pesada em muitas cenas – a briga dos capoeiristas com a polícia na ocupação do cortiço onde Isabel vivia, por exemplo, foi constrangedora.

Entre os atores, Patrícia Pillar é, de longe, a maior atração até o momento. No papel de Constância Assunção, a ex-baronesa em luta para recuperar o prestígio e o poder que tinha na monarquia, a atriz está construindo uma vilã que tem tudo para ser antológica.