Blog do Mauricio Stycer

Grosseria de globais com paparazzi não se justifica, mas merece ser discutida

Mauricio Stycer

Sou de um tempo em que o carioca da zona sul tinha orgulho de tratar as celebridades com indiferença. Fingia-se não notar a presença de ator da Globo ao seu lado na praia, no restaurante ou no cinema. Quando o astro era internacional, admitia-se uma olhadinha, mas só uma. Ator de Hollywood ou cantor de rock que permanecesse no Rio por mais de dois dias logo ganhava notinha irônica na coluna do Zózimo, no “JB”: “Ih, lá vem o chato do Prince”.

No mundo de hoje, com internet, câmeras digitais, redes sociais e sites de celebridades, a relação do carioca com os famosos da cidade mudou. A indiferença deu lugar ao assédio explícito. Além da paixão amadora dos fãs, em busca de uma foto para colocar no Facebook, há também os paparazzi profissionais, que ocuparam as esquinas do Leblon.

Parte das celebridades usa estes fotógrafos profissionais a seu favor, para se manter em evidência, outra parte os tolera, para evitar problemas, e uma minoria deixa claro a sua irritação com os novos tempos de assédio.

O ator Pedro Cardoso deu a senha, na quinta-feira, 12, a uma nova onda de ataques ao trabalho deste grupo de fotógrafos. No programa “Na Moral”, na Globo, disse que eles ganham a vida “de uma maneira medíocre”.

No dia seguinte, a atriz Luana Piovani sugeriu no Twitter uma campanha pelo fechamento do site Ego e da revista “Quem”, ambas da Globo, principais clientes do paparazzi (Em tempo: a foto da atriz que ilustra este texto foi postada por ela mesma nas redes sociais).

No sábado, 14, foi a vez de Pedro Bial, comandante do “Na Moral”, fazer o seu ataque. Questionado pela própria “Quem” sobre o trabalho dos paparazzi, primeiro disse: “Opinião é que nem bunda, cada um tem a sua. Eu tenho a minha posição. E a minha posição no caso dos paparazzi é de alvo''. Depois de refletir um pouco, acrescentou: “Tenho simpatia por quem trabalha honestamente… A questão da honestidade é que pega…”.

O apresentador do “Na Moral” havia mostrado no programa uma foto feita por um paparazzo que o expõe dentro da própria casa. A imagem foi obtida, se não me engano, porque a porta ou a janela da casa estavam abertas.

Nesta terça-feira, 17, o comediante Bruno Mazzeo adotou uma linha de raciocínio semelhante à do ator Pedro Cardoso. Em uma conversa com o paparazzo Gabriel Reis no Facebook, Mazzeo disse: “Eu continuo ganhando a minha fortuna e você uma merreca pelas fotos que consegue. Boa sorte”

Cardoso, Luana, Bial e Mazzeo fazem parte deste pequeno grupo que não aguenta mais o assédio dos fotógrafos. Na visão do ator que faz o Agostinho, de “A Grande Família”, o interesse do público pela vida das celebridades é sintoma de uma sociedade doente.  “Os alemães também compraram o nazismo, por esse raciocínio. A sociedade tem demandas, nem todas as demandas da sociedade são a saúde dela''.

Acho esta discussão muito oportuna. Não concordo, evidentemente, com as ofensas de Cardoso e Mazzeo, mas posso imaginar o que os levou a se manifestar. Seus comentários rancorosos, porém, desviam o foco do problema e os transformam em alvo.

Vejo a proposta de Luana como uma piada divertida, como tudo que ela escreve no Twitter. E entendo que Bial levanta um ponto importante sobre a questão da foto “roubada”. Qual é o limite?

A discussão está apenas começando e espero que, apesar destas manifestações atrapalhadas, possa avançar. O assunto merece.