Blog do Mauricio Stycer

O fator Maurine

Mauricio Stycer

Em viagem ao exterior, a jogadora de futebol recebe a notícia da morte do pai e, em vez de voltar para casa, decide permanecer com a sua equipe e disputar uma partida decisiva programada para ocorrer 48 horas depois.

Na véspera do jogo, em sua preleção, o técnico da equipe diz que a decisão da jogadora deve ser um exemplo para todas. Cobra amor, raça, irmandade e liderança em campo no dia seguinte.

Chegado o dia, em campo, de luto, a atleta conta com a solidariedade de todas as companheiras, que jogam com uma fita preta colada na altura do peito. Para tornar a situação ainda mais dramática, o jogo é contra a equipe anfitriã do torneio, que conta com o apoio de toda a torcida do estádio.

O jogo é duro, muito disputado. O primeiro tempo termina 0 a 0. No segundo, a situação continua igual. A tensão aumenta depois que a árbitra anula equivocadamente um gol da equipe da jogadora. Aos 33 minutos, num cruzamento, a bola cai no pé dela inesperadamente. Com calma, ela chuta e faz o gol. Em seguida, se ajoelha e chora.

A partida termina assim, 1 a 0. Após o apito final, ela volta a se ajoelhar em campo e é cercada pelas companheiras, que a abraçam. O gol decisivo leva a equipe à decisão do torneio.

Eis aí, resumidamente, o argumento para um filme capaz de fazer qualquer espectador se debulhar em lágrimas. A história contém todos os elementos que Hollywood adora em filmes de esporte: drama e superação em doses cavalares.

Mais interessante ainda, tudo isso ocorreu de verdade. A protagonista foi a lateral direita Maurine, da seleção brasileira de futebol feminino, presente nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Com seu gol sobre a seleção mexicana, na noite de 25 de outubro, ela classificou o Brasil para a final do torneio. E protagonizou uma história de cinema.

Em tempo: Acompanhei este “filme” do estádio Omnilife, em Guadalajara. Meu relato da partida está no texto Depois de perder o pai, Maurine marca e leva o Brasil à final do futebol no Pan. As entrevistas que a jogadora e o técnico deram depois da partida estão no texto “Meu pai pediu para eu trazer esta medalha”,diz Maurine após colocar Brasil na final.

Foto: AP Photo/Juan Karita

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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