Blog do Mauricio Stycer

Farkas ensina que a fotografia é a arte da convivência

Mauricio Stycer

Nascido em Budapeste, em 1924, Thomaz Farkas é um nome central, como diz Cristiano Mascaro, no estabelecimento da fotografia moderna brasileira. Teve participação decisiva, na década de 40, no Foto Cine Clube Bandeirantes, um centro de discussão e realização fotográfica, produziu uma série de documentários sobre a realidade brasileira, nas décadas de 60 e 70, além de ter lançado uma revista e aberto uma galeria para promoção e discussão do assunto.

Por sua “profunda modéstia”, na visão de Mascaro, Farkas guardou parte significativa de sua produção num “baú misterioso”, que só recentemente foi aberto. Uma amostra do que o seu acervo de 34 mil imagens contém está em exibição no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, e no livro “Thomaz Farkas – Uma Antologia Pessoal”, recém-lançado.

No último sábado, 12 de fevereiro, Farkas foi à Livraria Cultura, em São Paulo, debater o seu trabalho com Mascaro e Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS. Fisicamente frágil, mas com a voz firme, transmitiu uma lição importante ao público que lotou a sala: fotografia é convivência, troca de experiências entre as pessoas.

“Nunca vi uma pessoa celebrar tanto a amizade quanto ele”, disse Mascaro. “A fotografia de Farkas fala sobre a alegria de viver, nos leva a perceber como é boa a vida. Seu trabalho mostra uma celebração da vida”.

Entre as fotos inéditas que Farkas guardava no baú e vieram à luz agora está um incrível retrato do fotógrafo José Medeiros, o craque da revista “Cruzeiro”, feito em 1946. A imagem mostra a sombra do fotógrafo sobre uma grade, tomando um sorvete. É uma das muitas fotos que revelam não apenas o seu talento formal como o olhar atento às muitas sugestões que uma cena pode oferecer.

A exposição e o livro mostram a “evolução” do trabalho de Farkas. Das primeiras fotos de viés formal e abstrato, como diz Burgi, para o trabalho com uma visão mais humanista, próximo do fotojornalismo.

Isso fica nítido em várias séries, como a dedicada ao futebol. Fascinado pelo esporte, o fotógrafo registra a paixão do povo, seja na imagem das crianças trepadas em árvores ou nos pés dos espectadores na arquibancada do Pacaembu (é a imagem no alto deste texto, datada de 1942).

Notáveis, igualmente, são os inúmeros retratos de gente simples em bares ou nas ruas, bem como a imagem de Melanie, sua primeira mulher, que ilustra a capa do livro. Em todas elas, a construção da cena e da luz perfeita ficam em segundo plano diante da vida captada pelo fotógrafo

Questionado por um espectador do debate se, com as novas tecnologias, qualquer pessoa hoje pode ser considerar um fotógrafo, Farkas disse que sim. “Todo mundo é meio fotógrafo”.  Provocado a explicar melhor, acrescentou: “Porque a foto não é só nós, é nós e eles”.

Neste seu elogio da troca, da convivência, Farkas ensina que qualquer um pode, realmente, fotografar, mas não é o equipamento, seja ele uma câmera de último tipo ou um telefone celular, que vai produzir imagens que emocionam.

Em tempo: A imagem de Farkas e Mascaro no debate foi feita pelo editor João Farkas, filho do fotógrafo, que ajudou a organizar o livro e a exposição.

Em tempo 2: Outras fotos da exposição podem ser vistas aqui, no UOL Entretenimento.

A exposição “Thomaz Farkas: uma antologia pessoal” fica aberta até 3 de abril no IMS (Rua Piauí, 844, São Paulo), de terça a domingo, a partir das 13hs. A entrada é gratuita. O livro, com 140 imagens, custa R$ 85.

  1. Kamreb

    26/03/2011 10:23:16

    O PS é só mais uma ferramenta. Assim como a propria camera, que também é uma ferramenta de trabalho.O que conta mesmo é o fotografo e sua capacidade de lidar e criar com tais ferramentas...

  2. Daniel Cotrin

    26/03/2011 09:25:42

    Nem toda tecnologia do mundo substituirá, ou destituirá, um olhar. Fotografia, assim como outras artes, é paixão, vivência, ousadia, e isso Farkas fazia com maestria.

  3. Márcio

    26/03/2011 07:44:47

    Chegam a ser engraçados os comentários sobre o Photoshop...Nada mais é que uma ferramenta que executa digitalmente um série de recursos que os fotógrafos já executavam manualmente há anos. Através de recursos na revelação ou uso artístico de filtros, por exemplo. O que faz de Farkas um gênio é sua noção de composição, dinâmica da imagem, seu olhar único e a sensibilidade de dialogar através do registro fotográfico. Se nascido 50 anos mais tarde, provavelmente usaria os recursos disponíveis hoje em dia e nem por isso a importância e qualidade de seu trabalho seria menor.

  4. Everaldo Araujo

    26/03/2011 00:52:04

    O trabalho de Farkas é uma poesia em forma de imagens.

  5. Fernando Neves

    26/03/2011 00:30:18

    Morreu um homem sensivel e alegre. Viveu tudo que tinha direito e compartilhou muito com outros. Conheci pouco, mas, o suficiente para perceber a grandeza de um mestre por trás de imagens fundamentais. Um charuto ao final da tarde, um café e o silêncio saudando a vida. Vida-viva, Thomaz "Brasileiro" Farkas.

  6. Juliana

    25/03/2011 23:34:10

    Ele tinha um olhar impressionante para as coisas mais corriqueiras... Fazia-nos refletir sobre uma imagem que, se não vista através de sua ótica, facilmente deixaríamos passar despercebida. Ele tinha essa enorme sensibilidade.

  7. Tony de Sousa

    25/03/2011 22:08:58

    Saindo da polêmica sobre as novas tecnologias quero fixar-me na seguinte frase:“Nunca vi uma pessoa celebrar tanto a amizade quanto ele”, disse Mascaro. Quero deixar aqui meu depoimento. Eu era um jovem cineasta em inicio de carreira no final dos anos 70, estava fazendo um documentário que nunca terminei, e fui pedir uma ajuda para ele. Não precisei de muita saliva para convencê-lo. Deu-me várias latas de negativo 16 mm. Nunca me cobrou o fato de eu não ter terminado o documentário. Ficamos amigos. De minha parte, sempre o considerei um dos melhores amigos do meio cinematográfico.

  8. livia

    16/02/2011 22:42:23

    genial!é o tipo de obra que eu deixaria em cima da mesa, no suporte de livros,e viraria uma pagina por dia, tal qual uma bíblia.

  9. Eugenia-Maria

    15/02/2011 09:05:22

    As fotografias que mais me emocionam são aquelas que revelam em si o "elemento surpresa". Aquele olhar não revelado no primeiro momento, mas aos poucos, quando o aprendizado em vê-las, nutre em nós a esperança de que até parece fácil obtê-las assim, no acaso...rs. Na verdade, acredito que poucos conseguem desenvolver um estilo puramente pessoal. Mestre do olhar, em sua trajetória pessoal e profissional, agradecemos em ensinar a infinita possibilidade que qualquer cena nos é capaz de oferecer. Pura poesia!!!

  10. Diogenes Oliveira Filho

    15/02/2011 08:37:51

    Não acho que o fotoshop esta acabando com a arte de fotografar, isso vai de quem e como é utilizado. Apesar de eu preferir voltar ao romantismo do retoque, uma boa qualificada com fotoshop pode corrigir algum discuido de iluminação, por exemplo.

  11. Fernando Castanheira

    15/02/2011 04:20:00

    O momento único capturado pela sensibilidade do mestre, lhe dão alma e o eternizam.Ainda nos premia com a generozidade dos genios, quando afirma que qualquer um pode ser um Farkas e que a fotografia é a arte da convivência;Considero o fotoshop , o monstro devorador de almas.

  12. Paulo Gutemberg

    15/02/2011 01:15:49

    quem nao se lembra da foto das telhas do Farkas?!, antologica!!ponto para o IMS com a edicao do livro.uma curiosidade: Farkas e Jose Medeiros eram amigos? qual a circunstancia da foto da sombra do Jose Medeiros??

  13. katz22

    14/02/2011 23:17:55

    Ao Edilson:O Photoshop não vai destruir a fotografia, como a fotografia não destruiu a pintura - o que gerou muita discussão na época dos primeiros registros fotográficos. São coisas diferentes, artes e atos diferentes. O que a fotografia fez foi libertar a pintura e o desenho de sua função de reportagem, de registrar com a precisão possível um momento efêmero. Não vou dizer que não sinto saudades do tempo em que precisávamos acertar de verdade uma iluminação ou um efeito, mas... O tempo passa, as ferramentas evoluem. Sempre se tem a opção de usar ou não um recurso.k

  14. Adriano von Markendorf

    14/02/2011 23:06:22

    São comentários no mínimo reacionários. Infelizmente? antes de falar tão vagamente, viva ou pesquise sobre a fotografia comercial, publicitária, de moda ou arte e depois fale algo menos desprovido de embasamento.O photoshop está acabando com o ato de fotografar é de um absurdo tão grande que só posso atribuir a ignorancia pessoal.Que frase de efeito mais descabida e pueril!Aprenda um pouco e depois, MUITO DEPOIS, fale.

  15. Paulo Calixto - Lagoa de Dentro-PB

    14/02/2011 23:05:41

    Tomaz Farkas mostrou sua virtuose não somente na fotografia, mas também na produção de ótimos documentários. Ele procurou resgatar nos seus documentários as mais genuínas manifestações culturais e sociais do nosso povo.A cultura brasileira agradece.

  16. eliane silva

    14/02/2011 21:34:53

    Thomas Farkas foi meu professor no curso de jornalismo da ECA. Um daqueles que realmente faz a diferença. Nos ensinou a amar a fotografia e a ser pessoas melhores. Fiquei emocionada em saber que, mesmo depois de tantos anos, ele ainda nos surpreende com imagens tão belas. Obrigada, mestre!

  17. Eduardo

    14/02/2011 21:10:21

    Thomaz Farkas é Formidável!!Quanto ao Photoshop, acho que ele deve ser usado como uma continuação do trabalho do fotógrafo, se necessário.

  18. Dorival Moreira

    14/02/2011 21:07:44

    Estive lá, foi um grande encontro, duas feras da fotografia.

  19. Edilson Maçaneiro

    14/02/2011 20:42:45

    Ele é um mestre, sabe fazer FOTOGRAFIA de verdade e não apenas um esboço, para "pintar" e enganar com o photoshop.Infelizmente o photoshop é um programa que hoje é exegido pela fotografia comercial, mas muitos fotografos o utilizam para corrigir os seus péssimos trabalhos.Não sou contra este programa, mas acho que ele está acabando com o ato de fotografar.

Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Leia os termos de uso