Blog do Mauricio Stycer

Soninha “real facts”

Mauricio Stycer

Em meados de 1997, eu trabalhava como editor-executivo do “Lance!”, diário esportivo nascido em outubro daquele ano com sedes no Rio e em São Paulo. Como descrevi no livro “História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo”, uma das principais preocupações da equipe que criou o jornal era encontrar o que chamávamos de “diferenciais” na cobertura – notícias ou maneiras originais de abordar o noticiário dos clubes.

No final de novembro de 1997, eu soube, por amigos que trabalhavam na MTV, que a VJ Soninha era palmeirense fanática. Sugeri ao editor-chefe do jornal, Leão Serva, que a convidássemos para fazer uma entrevista, em nome do “Lance!”, com Viola, então o mais carismático jogador do Palmeiras. Leão aprovou a ideia e Soninha disse “sim” com entusiasmo.

Na quinta-feira, 20 de novembro de 1997, Soninha chegou ao Palmeiras em sua Vespa vinho. Para as fotos, abraçando Viola, vestiu uma camisa promocional do “Lance!”. O repórter Guilherme Gomes Pinto acompanhou o encontro e fez uma “reportagem da reportagem”, descrevendo a estreia de Soninha como jornalista esportiva.

Era véspera de um Santos e Palmeiras e Soninha, depois de perguntar a Viola “que tipo de som você curte?”, engatou: “Santos e Palmeiras é mais vantagem para Luxemburgo que conhece os jogadores ou para vocês que conhecem o técnico?” E também perguntou sobre a preleção do técnico Felipão, sobre o impacto das vaias no jogador e sobre as suas superstições.

As perguntas são muito melhores que as respostas, mostrando o talento de Soninha para a tarefa. Por muito tempo, acompanhando à distância, senti um certo orgulho de ver a ex-VJ da MTV desenvolver uma sólida carreira como jornalista e cronista esportiva.

Os desdobramentos de sua carreira política, no entanto, nunca me interessaram muito. É uma trajetória clichê, conhecida nos mais variados tempos e lugares. Da afronta libertária ao “sistema” à eleição para um cargo representativo por um partido de esquerda; a transição, de bicicleta e tudo, para um partido social-democrata; a participação num governo neoliberal; a foto na Playboy; as insinuações sobre sua vida privada etc etc.

Na sua função mais recente, de coordenadora da campanha presidencial de José Serra na internet, Soninha também não me chamava muita atenção, até que, nesta terça-feira, eu soube que ela fez uma insinuação grave em seu Twitter a respeito de um acidente no Metrô de São Paulo. Por volta de meio-dia, ela escreveu: “Metrô de Spaulo tem problemas na proporção direta da proximidade com a eleição. Coincidência? #SABOTAGEM #valetudo #medo”.

Quando abri o Twitter, uma hora depois, Soninha era alvo de muitas discussões e reclamações. Pelo tom e pela quantidade de comentários imaginei que ela logo viraria personagem de uma brincadeira cada vez mais comum no Twitter – a invenção de fatos associados a um determinado personagem. Escrevi então: “Pela vibe aqui na minha TL (timeline) um ‘Soninha facts’ está a caminho”.

Que eu me lembre, no Brasil, a primeira “vítima” da brincadeira foi o ator José Mayer, quando estreou a novela “Viver a Vida”, de Manoel Carlos, em setembro de 2009. Com sua fama de galã machão, Mayer foi alvo de milhares de piadas sobre seu talento. De lá para cá, diferentes personagens e situações foram alvo de gozações dos usuários – de Sonia Abraão a Felipe Melo, passando por Ronaldo, Neymar e até a “Folha”, ironizada por conta de uma manchete sobre Dilma Rousseff.

Em pouco tempo, Soninha já aparecia na lista dos principais assuntos do dia no Twitter e as piadas a seu respeito se multiplicavam. Entrevistada pela “Folha”, a coordenadora da campanha de Serra na Internet reafirmou suas suspeitas: “Conspirações existem. Teorias podem ser exageradas, mas conspirações existem. É óbvio que, nos movimentos sindicais, existe simpatia muito forte pelo PT. Não acredito em tanta coincidência. É óbvio. É óbvio”, disse.

Um ex-assessor da jornalista e política escreveu no Twitter que eu sou o responsável pela criação dos “soninhafacts”. Não creio. Como relatei aqui, o único “fact” que criei foi em 1997, quando a enviei para entrevistar Viola.

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