Blog do Mauricio Stycer

Ex-usuário defende a forma como “Passione” apresenta viciado

Mauricio Stycer

Reproduzi na semana passada a reclamação de um “pai revoltado” sobre a forma como Silvio de Abreu tem abordado a questão das drogas em “Passione”.  Segundo o leitor, um experiente professor, com formação em Química, a novela presta um mau serviço ao não mostrar que tipo de droga o personagem Danilo, vivido por Cauã Reymond, utiliza. O leitor também criticava o fato de a novela enfatizar apenas os efeitos negativos das drogas, mas não expor o prazer inicial que proporcionam.

O texto provocou uma série de comentários muito interessantes (publicados na versão anterior do blog). Também recebi muitos e-mails, com elogios e críticas ao autor da mensagem, e alguns depoimentos. Uma mãe me escreveu sobre o drama de ter um filho em casa viciado em crack. Segundo ela, o retrato pintado por Silvio de Abreu na novela é perfeito. “Pela descrição que vi sobre a trajetória do personagem Danilo, posso assinar embaixo que é exatamente o que vivi com meu filho”, escreveu. E mais:

Não acredito que a alegria momentânea reverta o quadro geral, que é a grande tragédia do usuário de drogas!  Acho até que pode-se falar do prazer, sim, ao consumir a droga, mas já o fato de mostrar a que ponto chega o usuário e sua família é realidade e peso suficiente para que as pessoas consigam perceber ao menos um pouco do tamanho da encrenca!!!

Também recebi um e-mail de um ex-usuário de drogas, “limpo” há dez anos, cujo depoimento veio, igualmente, em apoio à forma como a questão das drogas está sendo abordada na novela. Com seu consentimento, reproduzo trechos:

Na verdade, a questão de mencionar as drogas é o que menos importa. Eu tinha a minha ‘droga de preferência’. Digamos que eu seja um dependente ativo, aí estou vendo o Danilo se ferrando e tal e coisa, de repente vejo a droga que ele está usando, cara, toda a identificação que eu teria, se a droga não for a mesma, desaparece. O co-dependente (familiar) não percebe isso, mas nós, adictos em recuperação, temos um trabalho muito sério dentro da irmandade anônima sobre isso.

Existe o IP (informação ao público) que vai falar para escola, profissionais, enfim em todo lugar que não se refere aos doentes (adictos) e temos o HI (hospitais e instituições), aonde servi por muitos anos no começo da minha recuperação, e vamos falar com pessoas que tem problemas com drogas. Não falamos em tempo de uso e nem sobre drogas usadas, para não plantarmos diferenças. A semelhança está no sentimento, nas atitudes, no desespero, no roubo para mais uma, enfim…

Eu vejo o Danilo na novela e consigo me identificar com ele mesmo sem saber o que ele usa e há quanto tempo ele usa. Talvez se eu souber o que seja eu posso perder minha identificação. A abordagem está muito boa. Pois não centraliza num único aspecto. Ali pega tanto o dependente de cocaína (quando ele funga) quanto o dependente de maconha (quando ele fica lesado) quanto o de crack, quando ele vai pra beco, quanto os de bolinha, quando ele toma comprimido. O trabalho tem que ser feito no sentimento e atitudes e não na droga…

Por tudo isso, o leitor não gostaria que Danilo venha a ser visto na novela como um viciado em crack, como anuncia-se que ocorrerá. Conclui ele:

Gostaria muito que, se realmente pensam em colocar que ele está dependente de crack, que revogassem essa idéia. Pois aí o que está ajudando iria atrapalhar…

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na “Folha de S.Paulo''. Começou a carreira no “Jornal do Brasil'', em 1986, passou pelo “Estadão'', ficou dez anos na “Folha'' (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o “Lance!'' e a “Época'', foi redator-chefe da “CartaCapital'', diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros “Adeus, Controle Remoto'' (editora Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e “O Dia em que Me Tornei Botafoguense'' (Panda Books, 2011).

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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