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Encontro entre Silvio Santos e Edir Macedo sugere amizade que não existe
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Mauricio Stycer

Apresentado pela repórter Adriana Araujo como “um encontro de amigos”, o “tour” de Silvio Santos pelo Templo de Salomão na companhia de Edir Macedo mostrou, mais uma vez, a admiração do dono do SBT pelo líder da Igreja Universal. Mas não pela Record.

Há muito anos, Silvio tem feito manifestações de respeito pele trabalho religioso e social de Macedo. Em fevereiro de 2014, questionado pelo repórter João Batista Jr., da “Veja São Paulo”, se eram amigos, disse que “não”, mas repetiu os elogios. “Acho que o Edir fez uma bela obra. Ele ajudou mesmo, tirou muita gente do álcool e das drogas. Pode ter defeitos, mas as qualidades dele são mais importantes.”

EdirSilvioAdrianaAo abrir a reportagem do “Domingo Espetacular'' sobre a visita de Silvio Santos ao Templo de Salomão, Adriana Araujo disse: “O apresentador de milhões de fãs recebido pelo bispo de milhões de fieis. Como nunca vistos antes. O que eles têm a dizer um para o outro? E por que decidiram se encontrar?” Ou seja, a própria repórter frisou se tratar do encontro entre o dono de uma emissora de televisão e o líder de uma igreja.

Todas as referências de Macedo a Silvio foram de cunho religioso. Uma delas até um pouco agressiva: “Silvio, você não foi um sortudo.Você é fruto da promessa que Deus fez a Abraão. Eu vou abençoar aqueles que te abençoam. E vou amaldiçoar os que te amaldiçoam.” A reportagem não mostrou o que Silvio respondeu.

Silvio, por sua parte, elogiou a igreja e o trabalho do bispo várias vezes: “Ser contra isso é um disparate”, observou. “Foi uma iluminação de Deus”, disse o dono do SBT sobre a ideia de construir o Templo de Salomão. Macedo respondeu, a certa altura: “Eu sou a prova viva de que Deus existe.” Daquele seu jeitão, Silvio apenas disse: “Okay.”

Em dois breves momentos da reportagem de 35 minutos que documentou a visita, Silvio tomou a iniciativa de se dirigir a Macedo como dono da Record. Na primeira vez, disse: “Todos deveríamos nos unir para que nós pudéssemos alcançar melhores resultados. Seria muito melhor do que um ficar se degladiando com o outro. Besteira isso”. Edir apenas respondeu: “Ah, sim. Ah, sim.”

SilvioedirComMulheresNa segunda vez, depois de Adriana Araujo insistir na ideia de que aquele era “um encontro de amigos”, Silvio esclareceu: “Está no mesmo ramo que eu e nós estamos tendo as alegrias e as tristezas que o ramo oferece. Nós devemos puxar o barco juntos. E não cada um ficar puxando numa corda.”. Edir respondeu: “Ele tá certo. É isso mesmo”.

Ambos também falaram rapidamente sobre a compra da Record, ocorrida em 1989. É um episódio rumoroso, a respeito do qual existem várias versões. Já tentei resumir o que Silvio, a família Machado de Carvalho e Macedo dizem sobre o assunto num texto no blog (leia aqui). Neste domingo, Silvio apresentou uma versão colorida (“eu fiz questão de vender”, disse), bem diferente da que é relatada em três livros.

Record e SBT têm duelado de forma muito dura há mais de 15 anos. O último encontro entre os dois empresários havia ocorrido em 1998, justamente por conta da disputa entre as duas emissoras. Silvio tirou Ratinho da Record e foi ao encontro de Macedo negociar a multa rescisória. Não deve ter sido um encontro de amigos. “Fui pagar uma nota que fiquei devendo pra ele”, contou neste domingo.

Em 2007, a Record superou, pela primeira vez, a rival na média geral de audiência, tornando-se vice-líder. Em 2014, o SBT recuperou a posição, empurrando a emissora de Macedo para o terceiro lugar.

Desde então, recuperar a vice-liderança tem sido uma obsessão para a Record. A emissora contratou novos apresentadores (Sabrina Sato), criou novos programas (“Domingo Show”), recontratou Gugu Liberato, investiu na sua primeira novela bíblica (“Os Dez Mandamentos”), mudou e cancelou atrações com baixo Ibope – até agora sem sucesso. A emissora ainda conta com duas armas poderosas para 2015 – a estreia de Xuxa e o reality “Cake Boss”.

Em abril de 2014, a Record chegou a anunciar a contratação de Jean Paulo Campos, o menino que interpretava Cirilo na novela infantil “Carrossel''. “A Record me roubou ele! Seu Edir, isso não é coisa que se faça”, reclamou Silvio durante o seu programa (veja aqui). Dias depois, o ator foi convencido a ficar no SBT.

Neste domingo, Silvio deu uma mãozinha para Macedo. Com o encontro entre os dois, segundo dados prévios do Ibope, a Record registrou 17 pontos de média , contra 18 da Globo, que exibia o “Fantástico'', e 8 do SBT , que apresentava o … “Programa Silvio Santos''.

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“Narcos” flerta com público latino e ironiza ação americana antidrogas
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Mauricio Stycer

NarcosWagnerMoura
Em uma cena do terceiro episódio de “Narcos”, o ministro da Justiça da Colômbia, Rodrigo Lara Bonilla (1946-1984), recebe a visita de Steve Murphy, da DEA, a agência antidrogas americana, que traz um colete a prova de balas na mão. Vivido por Boyd Holbrook, o agente alerta Bonilla sobre os riscos que corre por estar enfrentando o narcotráfico, em especial Pablo Escobar (1949-1993).

Murphy sugere que Bonilla teria agido por pressão dos americanos e, por isso, poderia sofrer duras consequências. Irritado, o ministro critica a arrogância do agente americano, dizendo que a DEA apenas o ajudou com um detalhe (uma foto de Escobar na prisão) e que ele combateria o tráfico de drogas com ou sem o auxílio dos EUA. narcosagentesdea2“John Wayne só existe em Hollywood”, diz o ministro.

Na cena seguinte, a caminho do aeroporto, Bonilla é assassinado por dois homens numa motocicleta, enviados por Escobar. Ao chegar à cena do crime, o agente da DEA e seu parceiro, Javier Peña (Pedro Pascal), constatam que o ministro não estava usando o colete.

Inspirada em fatos e personagens reais (todos os citados aqui existiram), “Narcos” estreia no próximo dia 28 no Netflix, que encomendou o programa. Destaquei esta cena porque a série, apesar de ser uma produção norte-americana, e contar a história do ponto de vista do agente Murphy, flerta o tempo todo com o público latino.

O UOL assistiu aos primeiros três dos dez episódios. Pelo que vi, “Narcos” dá a entender que não pretende glorificar a ação do governo dos Estados Unidos na Colômbia. Ao contrário, quer mostrar também os problemas – e mortes – que causou, bem como sublinhar o papel dos norte-americanos enquanto usuários da droga contrabandeada da América do Sul (veja abaixo um trailer legendado).

Centrada em torno de Escobar, a série busca mostrar como o traficante encontrou as condições ideais, entre o final dos anos 70 e início dos 80, para explorar o negócio ainda incipiente da cocaína. Corrompendo diferentes níveis de poderes policiais e políticos na Colômbia, aliciando “soldados” entre as camadas mais pobres da população e atuando como “benfeitor” junto à população, o traficante conquistou a aura de “Robin Hood”.

A chave do sucesso inicial dos negócios do traficante, mostra a série, é a descoberta de que em Miami se encontra um mercado consumidor ávido pelo pó branco de origem colombiana.

Este olhar crítico sobre o consumidor da droga, que alimenta o tráfico, lembra muito os dois filmes da série “Tropa de Elite” – e não é à toa. “Narcos” é dirigido por José Padilha, diretor de ambos, e conta com Wagner Moura (o capitão e coronel Nascimento dos longas) no papel principal, como Pablo Escobar.

O namoro com o público latino é visível em outra “concessão”, a língua. Com exceção dos americanos, todos os demais personagens falam em espanhol. Aparece, ainda, na diversidade do elenco, que conta com nomes conhecidos de vários países: Juan Pablo Raba e Manolo Cardona (Colômbia), Stephanie Sigman e Ana de la Reguera (México), Luis Guzman (Porto Rico) e o brasileiro Andre Mattos (também de “Tropa de Elite''), entre outros.

A narração onipresente e levemente auto-irônica do agente Murphy em “Narcos” também faz lembrar de “Tropa de Elite 2”, cuja história é narrada em tom semelhante pelo coronel Nascimento.

narcoswagnermouradolares2Wagner Moura, que engordou cerca de 15 quilos para encarnar Escobar, também estudou o espanhol falado em Medellín. Não sei avaliar a qualidade da sua pronúncia, mas impressiona ver o ator interpretando em outra língua e fisicamente transformado.

Além de dirigir, José Padilha é também um dos produtores executivos da série, ao lado do americano Eric Newman. A criação é de Chris Brancato, autor de episódios de “Hannibal”, “Lei e Ordem” e “First Wave”, entre outras, com Doug Miro and Carlos Bernard.

A história de Pablo Escobar já foi contada em verso e prosa, inclusive numa novela (“O Senhor do Tráfico”) que fez bastante sucesso no canal pago + Globosat. A julgar pelos três primeiros episódios “Narcos” não parece acrescentar muito, mas é bem realizado e tem condições de agradar o público brasileiro, especialmente o fã de Wagner Moura e quem não conhece direito a saga do traficante.

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Livro relembra a época em que a TV era “máquina de fazer doido”
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Mauricio Stycer

tvjaguar1Sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, Sergio Porto (1923-1968) deixou um famoso – e engraçadíssimo – registro sobre os primeiros anos da ditadura que se estabeleceu no Brasil em 1964: o “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País”.

sergioportoOs textos, com comentários e crônicas sobre os absurdos ditos e cometidos por militares, políticos e jornalistas ao longo de cinco anos, entre 64 e 68, foram publicados em três livros, todos com o título “Febeapá” — o último deles no ano de sua morte precoce, de infarto, aos 45 anos.

febeapacapaA Companhia das Letras acaba de reunir os três volumes em um só livro (482 págs., R$ 54,90), com apresentação de Sergio Augusto e posfácio de João Adolfo Hansen. É leitura das mais engraçadas – e, às vezes, capaz de sugerir muitos paralelismos com os dias de hoje. Uma boa resenha do lançamento, publicada na “Folha”, pode ser lida aqui: Stanislaw Ponte Preta castiga com picardia os poderosos do país.

Para quem se interessa pela história da televisão, Sergio Porto deixou vários comentários e histórias sobre a sua experiência, como redator de programas em diferentes emissoras (Tupi, Rio, Globo, Excelsior, Record) nos anos 60. Os textos estão reunidos em “A Máquina de Fazer Doido”, também incluído em “Febeapá”.

São observações quase sempre sérias, bastante críticas, sobre a baixa qualidade da televisão naqueles anos. “Na televisão brasileira é assim; o sujeito que não sabe fazer nada acaba sempre diretor”, escreve, por exemplo.

Falando de um programa de auditório cuja descrição lembra muito a “Buzina do Chacrinha”, apresentado na Globo até 1972, Sergio Porto assim se refere aos candidatos que participam da atração: “esses coitados que, levados pela ingenuidade e muitas vezes pela necessidade, comparecem aos programas ditos de calouros para serem humilhados” .

tvjaguar2O autor também critica a exploração feita em um quadro apresentado por Silvio Santos no início dos anos 60 na TV Paulista (futura Globo), chamado “Rainha por um Dia” (por engano, Sergio Porto escreve “Rainha por uma Noite”): “Foi invenção de um tal de Silvio Santos, hoje milionário, segundo dizem, por ter industrializado, para uso exclusivo do rádio e da televisão, a burrice e a infelicidade humana”.

O livro conta também uma história lendária, protagonizada por outro jornalista famoso na época, Antonio Maria (1921-1964), a respeito de uma atração que ambos escreviam para a TV Rio:

tvjaguar3“O programa que fazíamos era horrível, mas era isto que o diretor artístico da estação queria, a ponto de – acredite quem quiser – manter outro redator só para piorar o que a gente escrevia. Um dia o Antonio Maria se aborreceu, entrou pela sala do diretor com cara de mau, atirou o escrito para o programa seguinte em cima da sua mesa e disse: ‘Está aqui a minha parte do programa. Eu sinto muito, mas pior que isso eu não sei fazer’. Depois, no café da esquina, contava o que fizera, às gargalhadas”.

Para encerrar, reproduzo duas frases de Tia Zulmira, outra personagem engraçadíssima criada por Sergio Porto. A primeira segue muito atual: “Quem assiste televisão durante a semana é incapaz de desconfiar que aos domingos é pior”. A segunda, para muita gente, também vale para os dias de hoje: “Nada é mais educativo na nossa televisão que o botão de desligar.”

Em tempo: As três ilustrações aqui reproduzidas são de autoria de Jaguar e constam da edição original do livro “Febeapá 3″, lançado pela editora Sabiá em 1968.

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Íris Abravanel diz se inspirar em “Poliana” para escrever novelas do SBT
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Mauricio Stycer

irisnoratinho

Poliana, a menina órfã, que sempre encontra algo de bom mesmo nas piores situações, é a grande referência de Íris Abravanel nas novelas que escreve ou adapta para o SBT. O romance juvenil da americana Eleanor H. Porter, publicado há mais de um século, é o livro de cabeceira da mulher de Silvio Santos, como ela explicou nesta quinta-feira (30) no “Programa do Ratinho”.

“Eu faço personagens até hoje baseados na Poliana”, contou. “Eu gosto de passar valores para as pessoas. Valores, princípios, família, união, amizade. E eu creio que é isso que tem agradado às famílias, às crianças”.

carrossel3Íris é autora de “Revelação” (2008) e das adaptações de outras cinco novelas, “Vende-se um Véu de Noiva” (2009), “Corações Feridos” (2012), “Carrossel” (2012), “Chiquititas” (2013) e “Cúmplices de um Resgate”, que estreia na próxima segunda-feira (3).

As novelas com temática infantil adaptadas por Iris revelaram-se um grande sucesso na grade do SBT. Daí a referência à Poliana: “As pessoas estão precisando de esperança, de referencial de família. E eu sempre gostei de passar coisas boas através do que eu escrevo”, disse a Ratinho.

cumplicesresgateAdaptada de uma novela mexicana, “Cúmplices de um Resgate” terá cerca de 250 capítulos. “Nessa novela, aproveitáveis, temos só 90 capítulos”, contou ela. Os demais estão sendo escritos por ela e sua equipe, disse.

“E a minha equipe é muito jovem. Eles são criativos, eles me ajudam. Nós nos reunimos e todo mundo dá ideias. As ideias fluem. Eles leem muito, assistem muitos filmes, seriados. E as ideias vão surgindo”, observou, sem se dar conta de que a descrição deste processo criativo não é tão “criativo'' assim.

Durante a conversa com Ratinho, Iris voltou a contar a história de como virou autora de novelas do SBT. “Eu via a dificuldade que meu marido tinha de trazer autores para o SBT. Ele chegou a contratar alguns, mas a Globo pegou de volta. E aí no café da tarde, eu falei: ‘Você quer que eu escreva uma novela pra você?’ E ele: ‘Você escreve bem, pode escrever.’ Foi simples assim”.

Iris contou ainda que “Silvio dá palpites quando eu peço, mas não se intromete”. E revelou seus dois maiores passatempos: “Gosto de ler muito, de cozinhar”. Contou que nas férias na Flórida “brinca de casinha” com o marido. “Eu gosto de cozinhar, e ele ama limpar a cozinha. Não é só lavar a louça, tem que limpar fogão, deixar tudo brilhando.”

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“I Love Paraisópolis” corre atrás da realidade e coloca o racismo em cena
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Mauricio Stycer

ilovesorayapresa3Novelas são obras de ficção sem compromisso com a realidade. Espera-se que façam sentido, sejam verossímeis, mas não que retratem o mundo tal como ele é – este é o papel do jornalismo e, eventualmente, do documentário.

No caso de uma novela ambientada em uma comunidade pobre, cujo título faz uma homenagem carinhosa a ela, como “I Love Paraisópolis”, o problema é um pouco mais complexo.

Alcides Nogueira e Mario Teixeira, os autores do folhetim, inventaram uma Paraisópolis bastante desconectada da favela real, mas entendem que precisam mostrar um pouco da realidade de quem vive no local.

Um problema grave, tratado com muita sensibilidade, é o das mães solteiras ou das crianças criadas longe dos pais. São várias na novela – Paulucha (Fabiola Nascimento), Eva (Soraya Ravenle), Deodora (Dani Ornellas), cada uma com suas especificidades.

Os personagens que vivem na Paraisópolis da ficção enfrentam também dificuldades para pagar o aluguel, encaram o desemprego, se submetem a serviços subalternos com salários baixos no vizinho Morumbi, além de ter poucas opções de transporte e quase nenhuma segurança pública.

ilovegrego1O poder na comunidade é exercido por Grego (Caio Castro), que manda e desmanda no cotidiano dos moradores. A novela, porém, retrata o criminoso com tintas de humor. Não há cenas de violência, tráfico de drogas ou mesmo furtos e roubos.

Com muita habilidade, a dupla de autores têm mantido a história em um registro cômico, oscilando da comédia romântica ao humor rasgado. Os vilões, para permanecerem adequados ao horário de exibição, ganharam um tom farsesco, que muitas vezes se aproxima de história em quadrinhos.

ilovepatricialindomar2Por tudo isso, causou surpresa o ar de seriedade que “I Love Paraisópolis” adotou esta semana, fugindo totalmente do seu padrão de comédia. No capítulo de terça-feira (28), a vilã Soraya (Leticia Spiller) abandonou o estilo maluquete (“é tão difícil ser eu”) e ofendeu sua terapeuta, Patricia (Lucy Ramos), no restaurante: “Tinha que ser preta”, disse ao ser rejeitada por ela.

Na companhia do namorado, Lindomar (Gil Coelho), a psicóloga pediu a Soraya que repetisse a ofensa, no que foi atendida. A vilã, então, foi presa por injúria racial e saiu algemada do restaurante (imagem no alto do texto).

ilovegabo2O capítulo desta quarta-feira (29) girou inteiramente em torno do crime de Soraya. A vilã foi condenada por quase todos os demais personagens da história. Seu marido, Gabo (Henri Castelli), tentou – sem sucesso – subornar Patricia e Lindomar, para que retirassem a queixa e mudassem o depoimento contra Soraya.

iloveizabelitasorayaIzabelita (Nicete Bruno), mãe da vilã, fez um discurso forte e emocionante contra o racismo. Depois de dar um tapa na cara da filha, ela disse: “Você jogou na sarjeta toda a educação que eu e seu pai lutamos tanto para dar a você. Você é totalmente desumana, Soraya, incapaz de entender que todas as pessoas são iguais”.

A situação apareceu na novela 25 dias depois de Maria Julia Coutinho, “moça do tempo” do “Jornal Nacional”, ter sido alvo de injúrias raciais na página do telejornal no Facebook.

O tema foi tratado de forma aberta e corajosa pela própria jornalista, durante o “Jornal Nacional” no dia 3 de julho: “Eu já lido com essa questão do preconceito desde que eu me entendo por gente. Claro que eu fico muito indignada, triste com isso, mas eu não esmoreço, não perco o ânimo, que é o mais importante. (…) Os preconceituosos ladram, mas a caravana passa.''

Correndo atrás da realidade, mesmo que ao preço de deixar a comédia de lado por alguns instantes, “I Love Paraisópolis” marcou um golaço esta semana.

Cenas de “I Love Paraisópolis''

Cenas de “I Love Paraisópolis''

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Maria Julia Coutinho faz um discurso histórico contra o racismo

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“TV constrói um país que não é verdadeiro”, diz Pedro Cardoso
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Mauricio Stycer

Depois de mais de 30 anos de Rede Globo, o ator Pedro Cardoso se sente desde o final de 2014 pouco prestigiado pela emissora, com quem ainda mantém vínculo contratual. O ano marcou o encerramento, depois de 14 temporadas, da série “A Grande Família”, na qual interpretou o inesquecível Agostinho Carrara. Também será lembrado por ele como o de uma experiência traumática, o quadro “Uãnuêi”, interrompido pelo “Fantástico” depois de apenas quatro episódios (de um total de dez).

Pedro Cardoso está, no momento, em cartaz com uma peça muito elogiada, “O Homem Primitivo”, na qual divide autoria, direção e o palco com sua mulher, Graziella Moretto. Esta semana, encerra-se, com casa lotada, a temporada paulistana, no Teatro Frei Caneca, e na próxima semana tem início no Rio, no Teatro das Artes.

O ator foi o convidado desta semana do “UOL Vê TV”. Na conversa, realizada na tarde de terça-feira (28), ele fala bastante sobre como vê a televisão brasileira hoje – “acovardada e conservadora”.

grandefamiliaConta que, ao final de “A Grande Família” não recebeu nenhuma oferta da Globo para desenvolver algum projeto seu. Nem sentiu qualquer interesse da emissora para que apresentasse alguma ideia.

“Com a trajetória que tive na TV Globo, e com o sucesso que ‘A Grande Família’ teve, eu imaginava que a emissora me ofereceria a oportunidade de desenvolver um projeto que fosse meu. ‘A Grande Família’ era um projeto coletivo. Isso não foi oferecido a nenhum de nós'', diz.

“O petróleo da comunicação social, em teledramaturgia, é o ator. É o ator que dá cara ao trabalho de todos. Isso confere ao ator um poder incomensurável'', observa.

“Ninguém sabe, na verdade, quem é o diretor ou o autor da ‘Grande Família’, embora eles fossem tão importantes quanto nós. A empresa, e não só a Globo, todas, o que fazem? Negam poder ao ator. Os atores ficam esperando ser convidados. A Globo não é sensível a nenhum movimento feito por um ator”, justifica. “Preferem atores que já entraram no mercado tendo abdicado de antemão da sua autoria.”

Na entrevista, Pedro reconhece que é “tido e havido como um sujeito que briga”. Mas explica: “Brigo pela minha autoria”. Citando o diretor Luis Felipe Sá, que dirigiu os últimos anos da “Grande Família” como um grande parceiro, observa: “Encontrei um diretor que entende que entre mim e ele há apenas uma relação de função, e não de hierarquia”.

pedrograzielaSobre o cancelamento da série que fez para o “Fantástico”, na qual ele e Graziella Moretto improvisavam sobre temas propostos pela plateia, Pedro diz que a emissora alegou problemas de “audiência” para cancelar o quadro. ''

“Tive uma experiência traumática no ‘Fantástico’. Fizemos um quadro de improviso, improviso verdadeiro, não esse improviso falso, que às vezes se tenta fazer. A equipe do ‘Fantástico’ não gostou. E obviamente, quando não gostam, dizem que teve dificuldade de audiência. Acho que não era crise de audiência, não. Era mesmo um problema ideológico'', afirma.

E acrescenta: “A televisão no Brasil se dedicou a construir uma espécie de país que não é verdadeiro. O ‘Fantástico’ trata dos assuntos com uma falsa verdade, na minha opinião. Até quando diz que uma coisa é verdade, parece entretenimento, uma coisa bobinha, engraçadinha. Eu faço uma coisa que é engraçada mesmo, não engraçadinha. A gente mandou dez programas prontos. Na hora de escolher os primeiros, foram escolhidos os mais amenos.”

Na visão do ator, “a televisão brasileira está com muito medo da internet. E está um pouco acovardada, um pouco conservadora. Ela está mudando só na maquiagem”.

O seu diagnóstico é duro mesmo: “O mundo mudou muito. E uma coisa principal: o Brasil mudou, muito mais que a televisão brasileira. A TV brasileira ainda está igual ao Brasil do FH (Fernando Henrique) e nós estamos num Brasil pós-Dilma, embora ela ainda esteja [no governo]. E a gente tem que retratar este Brasil que mudou. Se a gente ficar fazendo a televisão que era da época do Fernando Henrique, o público vai fazer outra coisa.”

Abaixo, alguns trechos selecionados da conversa. O último vídeo, com 30 minutos, tem a íntegra da entrevista. Recomendo muito.

Em tempo: A versão original deste texto dizia que Pedro Cardoso não tem vínculo contratual com a Globo, o que estava errado e foi corrigido.

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Documentário explica a revolução que o narrador Osmar Santos fez no rádio
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Mauricio Stycer

osmarsantos

Maior investimento da ESPN Filmes em 2015, o documentário “Osmar Santos: Vai Garotinho que a Vida é Sua!” será exibido pela primeira vez nesta terça-feira (28), às 20h30.

Assisti a uma versão ainda não totalmente finalizada, mas posso dizer que o filme vai agradar tanto a quem ouviu muito jogo com o ouvido colado no radinho quanto a quem só escutou falar sobre o grande narrador que foi Osmar Santos.

O documentário reconstitui, de forma cronológica, a trajetória do Garotinho com base em depoimentos da mãe, Clarice, de dois irmãos, de um filho e de muitos colegas de profissão, além dos ex-jogadores Neto, Casagrande e Vladimir.

Vai da infância de Osmar Santos na roça, onde já se dedicava a imitar os narradores que ouvia no rádio, aos dias de hoje, em que se ocupa pintando telas com uma técnica própria que desenvolveu.

Os depoimentos de Juca Kfouri, Fausto Silva, Paulo Soares, Edison Scatamachia, Juarez Soares, Roberto Carmona, Joseval Peixoto, Wilson Matos, Pedro Panvéchio e dos irmãos Oscar Ulisses e Osório Santos ajudam a entender a pequena revolução que Osmar operou na narração esportiva de rádio.

Com seus bordões, os efeitos sonoros em estúdio e as muitas referências históricas e culturais que misturava às narrações, o Garotinho desenvolveu um estilo novo e moderno, posteriormente muito imitado.

Osmar Santos também é lembrado pelo papel importante que teve, ainda durante a ditadura, ao participar como locutor da campanha das Diretas Já, em 1984. Como se recorda Juca Kfouri, o narrador era então funcionário da Globo, que inicialmente tratou com muita timidez do movimento democrático em seus veículos.

A recordação do acidente que, em 1994, quase causou sua morte e afetou a sua fala, é naturalmente o momento mais emocionante do filme, sublinhado por um depoimento da mãe.

Convencional, “Garotinho que a Vida é Sua!” é mais uma grande reportagem do que um documentário, mas cumpre muito bem a função de deixar um registro da importância da trajetória do narrador e do homem Osmar Santos.

Horários de exibição: Na ESPN Brasil: terça-feira, 28/07, às 20h30; sexta-feira, 31/07, às 15h; terça-feira, 04/08, às 17h; quarta-feira, 05/08, às 21h. Na ESPN: quarta-feira, 29/07, às 18h; quinta-feira, 30/07, às 8h e às 21h; sexta-feira, 31/07, às 12h.

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“Tomara Que Caia” é encurtado, mas continua sem graça e perde audiência
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Mauricio Stycer

TomaraquecaiaperisseexbbbEm resposta ao impacto negativo da estreia, o “Tomara que Caia” esboçou algumas mudanças neste segundo episódio, exibido na noite de domingo (26), na Globo. A mais visível foi a duração do programa, encurtada em 15 minutos — foram 59 minutos na estreia, contra 44 no segundo episódio.

Também recorreu-se menos à interação e à “trollagem”, justamente as principais novidades do formato desenvolvido pela emissora. Ao interromperem menos o andamento da história, foi possível dar mais oportunidade aos atores de explorarem o texto original.

tomaraquecaiaerijonsonE é ai, exatamente, que “Tomara que Caia” segue fraquejando. Mais próximo de uma comédia de situação comum, o programa depende muito de um bom texto e de um time afiado para o humor. Nem uma coisa nem outra estão acontecendo.

Com um enredo vagamente inspirado em “Doente Imaginário”, de Molière (1622-1673), a comédia deste domingo girou em torno de um homem que finge morrer para ver se seus herdeiros gostam dele ou estão apenas interessados em seu dinheiro.

Empolgada na estreia, desta vez a plateia presente na gravação mal riu das poucas piadas. Para complicar, o elenco escolhido para o programa é muito irregular e, em sua maioria, está rendendo pouco.

Heloísa Périssé, Dani Valente e Fabiana Karla ainda proporcionam alguns poucos momentos de diversão, e só, até agora. Eri Johnson, Marcelo Serrado, Nando Cunha, Priscila Fantin e Ricardo Tozzi seguem travados no palco.

A audiência em São Paulo caiu bastante em relação à estreia. O programa registrou média de 10 pontos no Ibope, contra 12,9 no primeiro domingo, mas ainda assim foi líder no horário de exibição. No Rio, a queda foi menor — de 14, na estreia, para 13 neste domingo.

tomaraquecaialogo2Em tempo: Não bastassem as piadas com o “Tomara que Caia'' no Twitter, muitos espectadores que são clientes da NET notaram que a descrição do programa na operadora estava sendo exibida com a logomarca adulterada para “Tomara que saia logo do ar''. Segundo a NET, foi um erro operacional da empresa responsável por fornecer os dados.

Atualizado às 16h.

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“Bake Off Brasil” diverte com jurados cruéis e candidatos despreparados
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Mauricio Stycer

bakeoffbrasil
Surfando feliz a onda das competições de culinária que invadiram a televisão, o SBT estreou neste sábado (25), sete dias depois de encerrar o “Cozinha Sob Pressão”, um programa dedicado exclusivamente a sobremesas, o “Bake Off Brasil – Mão na Massa”.

O reality mostrou reunir os principais ingredientes que fazem o sucesso deste tipo de atração: jurados cruéis, candidatos despreparados, provais difíceis, uma apresentadora simpática e excelente edição de imagens.

bakeoffayrtonO empresário Fabrizio Fasano Jr. e a confeiteira Carolina Fiorentino cumprem a função de humilhar, digo, julgar os candidatos, todos cozinheiros amadores, quase todos muito pouco preparados para a tarefa.

No momento mais duro, para não dizer grosseiro, Fasano chocou um dos concorrentes, Ayrton, com a seguinte observação sobre um detalhe no topo de seu bolo: “Você não sabe se é um brigadeiro ou um pouquinho de cocô de cavalo''. Magoado, Ayrton disse posteriormente, longe do jurado: “Nunca comi um cocô de cavalo tão bom''. Elogiado na segunda prova, o candidato ainda observou: “De cocô a ganhador''.

Versão de um formato britânico, o “Bake Off” tem uma característica que agrega justiça à avaliação dos jurados: nas provas técnicas, eles não sabem quem são os autores dos doces. Esse julgamento “às cegas”, ainda que menos divertido para quem vê pela televisão, exclui a chance de um jurado “proteger” ou “perseguir” um candidato com base em simpatia, carisma ou qualquer outro aspecto de caráter pessoal.

Estreando como apresentadora, Ticiana Villas Boas mostrou o que se espera de alguém nesta posição coadjuvante – bem à vontade, esbanjando simpatia, sem ter muito o que fazer, mas não atrapalhando ninguém.

bakeoffcandidatosO primeiro episódio do “Bake Off Brasil” também chamou a atenção por ser apresentado fora de estúdios, em um local com bonita paisagem externa. Os candidatos se submeteram a duas provas, um “bolo da vida”, de livre escolha, e uma “torta invertida” de maçã. Em sua maioria, fracassaram em ambas experiências.

A lamentar que o programa não tenha explicado como chegou à seleção dos participantes, eliminando milhares de candidatos antes de chegar aos 12 escolhidos. Também faltou mostrar melhor como e onde cada confeiteiro escolheu os ingredientes usados na primeira prova.

Competições de culinária não ensinam a cozinhar. “Bake Off Brasil” não foge à regra. Ainda assim, também senti falta de demonstração – um pouco de “como se faz” os doces pedidos.

Apesar disso, a julgar pela estreia, o novo reality do SBT promete muita diversão – com os candidatos e o jurados.

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Até uma personagem de “Babilônia” não vê sentido na transformação de Regina
Comentários 26

Mauricio Stycer

babiloniareginaantesdepois

Entre as tantas mudanças forçadas, situações absurdas e reviravoltas sem pé nem cabeça de “Babilônia”, uma especialmente nem está chamando tanto a atenção, apesar de ser igualmente surpreendente. De uma hora para a outra, a mocinha Regina (Camila Pitanga) foi do inferno ao paraíso, trocando a vida de dona de barraca de praia pela de modelo.

babiloniacrisA mudança foi tão radical que sua antagonista, Cris (Tainá Muller), comentou a respeito com Murilo (Bruno Gagliasso) no capítulo de segunda-feira (20).

“Essa mala sem alça parece até gato: cai sempre de pé. Nunca vi disso. Uma mulher começa como faxineira, depois vira gerente de restaurante, depois vira modelo. Não tem nenhum sentido isso.”

Cris e o autor da novela que escreveu a cena merecem o Troféu Sinceridade da semana pela frase, que resume bem o absurdo. E só há uma resposta possível: é novela.

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